A ideia de que “vozes de trabalhadoras sexuais” são ignoradas pela mídia é uma piada

Escrito por: Simone Watson. Sobrevivente da prostituição, índigena da Austrália, diretora da NorMac (Coalizão do Modelo Nórdico na Austrália).

Retirado de: http://www.feministcurrent.com/2016/08/01/idea-sex-worker-voices-ignored-media-joke/ (publicado 1/8/16)

Traduzido por: Carol Correia

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Figura 1 “Trabalhadoras sexuais falam”

No espirito da posição popular “trabalhadoras do sexo são sub-representadas”, repetidas pela mídia liberal de defensores da prostituição, ad naudeam, Daily Life publicou ainda outro artigo repetindo esse mito. A autora, além de autoproclamada “trabalhadora sexual” e escritora publicada, também se designa “furiosa”.

Dessa vez, o artigo aponta o Melbourne Writers Festival (no português, Festival de Escritores em Melbourne) por não ter “uma trabalhadora sexual” no painel “Invisible Women” (no português, “mulheres invisíveis”) – um painel sobre prostituição com Melinda Tankard Reist, Meagan Tyler e Ruth Wykes.

“Trabalhadoras sexuais não são invisíveis. Nós apenas estamos sendo ignoradas”, diz a manchete.

Não, vocês não são ignoradas.

As vozes pró-prostituição são tão onipresentes que até chamar crianças prostituídas de “trabalhadoras sexuais” tem se tornado entranhado pela mídia e pela psique pública.

“Trabalhadoras sexuais” estão tão longe de serem ignoradas que quando escritores que expõem o lado negro do comércio sexual aparecem no painel para falar sobre seu trabalho e sua pesquisa, “a voz de uma trabalhadora sexual” é publicada no Daily Life se opondo a isso.

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Figura 2 Abaixo do título, “esmagado pelas dívidas, estudantes da Universidade de Nova York e outras escolas estão ocupando a ‘profissão mais antiga do mundo'”

 

A vozes pró-prostituição estão tão longe de serem ignoradas que a Anistia Internacional está pressionando seus membros de cerca de quatro milhões de pessoas (e muito provavelmente qualquer esquerdista que eu entrei em contato com) para apoiar a descriminalização completa da indústria do sexo.

Sobreviventes da prostituição constantemente escutam “Prostituição é apenas ‘trabalho sexual’ – um trabalho como qualquer outro? Alguém que diz diferentemente é apenas moralista[1]”, pela mídia e pelo público.

“A cruzada feminista contra trabalhadoras sexuais adveio do sufrágio do movimento moralista sobre seus maridos cometendo adultério.”

– Morgan M Page (@morganmpage) em 12 de agosto de 2015.

“@dreahouston @kwetoday eu vejo o que eles precisam… quando eles usam prostituição, apoiam seus hábitos de drogas… que tipo de vida é essa?

– Invest in Lnowledge (@deceitindrugs) em 3 de outubro de 2015.

“@deceitindrugs por favor. Me poupe de seu moralismo. Eu conheço MUITAS mulheres na indústria do sexo que são empoderada por seu trabalho”

– Andrea Houston (@dreahouston) em 3 de outubro de 2015.

“Esse texto no @latimes é lixo, reportagem moralista sobre trabalho sexual e continua o estigma perigoso http://www.latimes.com/local/abcarian/la-me-0129-abcarian-sex-traffic-20160129-column.html …
– Meagan (meagenrosae) em 29 de janeiro de 2016.

“Querida sociedade: talvez menos moralismo sobre adultos consentindo ao trabalho sexual e um pouco mais sobre o assédio diário na rua?”
– Lucy Everleigh (@lucyeverleigh) em 29 de julho de 2015.

O que Iselin realmente quer dizer não é que “trabalhadoras sexuais” estão sendo ignoradas, mas sua particular voz e as vozes que apoiam inequivocamente a completa descriminalização da prostituição não estão nesse painel em particular.

Mas por que toda discussão sobre prostituição deve incluir vozes daqueles que apoiam a indústria do sexo? Um painel de socialistas argumentando contra capitalismo seria esperado em incluir um bilionário para representar as vozes pró-corporativismo? Um painel de ambientalistas argumentando a injeção de líquidos em alta pressão para a extração de óleo ou gás precisaria convidar um trabalhador de petróleo para o painel para discutir o fato deles apoiarem a indústria pessoalmente?

Scarlet Alliance, um grupo de lobby pró-descriminalização, foi, de fato, oferecido uma seção inteira no Melbourne Writers Festival, mas eles recusaram. Acho que, a menos que haja uma oportunidade para tentar desacreditar autores feministas, “as vozes das trabalhadoras sexuais” não valem realmente o tempo deles. Em comparação, enquanto uma sobrevivente de prostituição que aparece no livro Prostitution Narratives: Stories of Survival in the Sex Trade (o livro ainda não contém tradução para a língua portuguesa, mas no português seria Narrativas de Prostituição: Histórias de Sobrevivência no Comércio de Sexo), o festival me recusou a estar no painel “Mulheres invisíveis” e eu queria estar lá.

Argumentar que isso não é a primeira vez que um festival ignorou “profissionais do sexo”, Iselin aponta para o Festival of dangerous Ideas (em português, Festival de Idéias Perigosas) de 2014, que não tinha um “trabalhador do sexo” auto-identificado no painel, “Mulheres à venda”. Para remediar isso, a jornalista pró-prostituição Elizabeth Pisani convidou uma “trabalhadora sexual” para ocupar seu lugar no palco durante o painel. Este episódio orquestrado proporcionou ao público a voz da então Agente do Projeto Migrante da Scarlet Alliance, Jules Kim. (De acordo com o site da Aliança Scarlet, “O Projeto de Migração” é focado em “profissionais do sexo migrante” – também conhecidos como mulheres traficadas…) Kim é agora a CEO da organização, substituindo Janelle Fawkes que, como Kim, se chama “trabalhadora do sexo “, apesar do fato de que não há evidência de que, de fato, tenha ‘vendido’ sexo. (Não duvidamos que alguns membros do grupo financiado pelo governo, a Scarlet Alliance, vendam ou costumavam vender sexo, mas a mídia e o público precisam ser sábios ao fato de que muitos membros não venderem e nunca terem vendido, apesar do fato de que a organização afirma ser “administrada por profissionais do sexo, para profissionais do sexo”.) Em outras palavras, o impulso para ouvir as “vozes das trabalhadoras sexuais” não representa com precisão as vozes marginalizadas – trata-se de manobras políticas e que criam uma cena em que o público é feito para aceitar argumentos feitos em favor da descriminalização, incontestáveis, porque uma suposta “trabalhadora sexual” diz isso.

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Figura 3″Deveria a prostituição ser um crime? Por Emily Bazelon” Mais uma vez, dessa vez pela New York Times, promovendo “as vozes das trabalhadoras sexuais”.

 

Iselin não está “furiosa” por não haver uma “trabalhadora sexual” no painel “Mulheres invisíveis”, ela está apenas furiosa que as feministas, Tankard Reist e Tyler estão incluídas e falarão sobre os prejuízos da prostituição, em vez de trabalhar para neutralizar e normalizar a prostituição.

Iselin é inteligente o suficiente para pagar um serviço labial politicamente correto para os testemunhos de sobreviventes em Prostitution Narratives, chegando a dizer que ela acha que nossas histórias devem ser “acreditadas, confiáveis e amplificadas”. Mas eu me pergunto se Iselin iria ao festival porque eles se recusaram a me incluir no painel?

Você vê, de fato, são as vozes das mulheres prostituídas e anteriormente prostituídas que estão falando contra a agenda de Iselin e Scarlet Alliance para expandir o comércio sexual que na verdade é “excluído, estigmatizado e marginalizado”. Vozes como os de Iselin e do Scarlet Aliança não são ignorados. Nos Estados Unidos, por exemplo, um longo artigo publicado na New York Times pretendia fazer a pergunta: “A prostituição deveria ser um crime”, mas apresentava apenas autoproclamados “profissionais do sexo” da organização, Sex Workers Outreach Project (SWOP), ainda mais um grupo de lobby pró-descriminalização.

Iselin está “furiosa” de que nossas vozes de sobreviventes foram incluídas em um livro e que uma editora feminista e dois editores foram suficientemente corajosos em publicar nossos depoimentos. E acredite em mim, neste clima pró-comércio sexual, é incrivelmente corajoso – aqueles que não apoiam os direitos dos homens para comprarem mulheres para serem usadas como brinquedos sexuais pessoais são repetidamente vilipendiados e desacreditados por vozes pró-comércio do sexo que desejam empurrar sua agenda a qualquer custo.

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Figura 4 “Trabalho sexual é trabalho”, imagem de capa do artigo no The Nation “Vamos chamar Trabalho sexual pelo que ele é: Trabalho”

 

O texto de Iselin é manipulador e dissimulado. Ela diz que ela não duvida da veracidade de nossos testemunhos, mas nos rejeita, voltando-se nas mulheres que realmente ouviram as sobreviventes e que amplificam nossas vozes, alegando que são apenas oportunistas. Ao reduzir a pesquisa exaustiva de Tankard Reist e Tyler, a inteligência e a coragem delas como “pornografia trágica” ou alguma agenda maligna “contra trabalhadoras sexuais”, ela apaga as realidades e as vozes das sobreviventes.

As histórias reais de mulheres prostituídas não são “pornografia trágica”. É realmente insensível reivindicar apoiar um grupo de pessoas que sofreu torturas, abusos e degradação, então implicamos que somos apenas alguns que passaram a ser tratados de forma difícil e não representa a maioria, quando, na verdade, nós somos a maioria. As pesquisas mostram que as mulheres prostituídas sofrem de PTSD nas mesmas taxas que os veteranos de combate e a maioria sofreu abuso sexual, verbal, físico e psicológico de forma contínua.

Iselin pode ter pago o serviço de testemunhas de sobrevivência, mas porque continua a nos pintar como fracas, não confiáveis, que simplesmente caíram sob o feitiço de defensores anti-trabalhadores sexuais desonestos, seu esforço em mostrar empatia falha.

A mensagem que Iselin envia é que as vozes de sobreviventes e defensores que se opõem ao sistema de prostituição não devem ser “acreditadas, confiáveis e amplificadas”, afinal. De fato, a menos que destacamos e incluímos vozes pró-prostituição, nós somos, aparentemente, narradoras inconfiáveis e nosso trabalho é ilegítimo. Enquanto certamente todo mundo tem um direito a opinião, isso não significa que todas as opiniões devem ser escutadas todas as vezes. A promoção da prostituição tem mais tempo de ar suficiente em todo o mundo, através da mídia, da cultura pop e do discurso de esquerda e liberal. A ideia de que a perspectiva de Iselin é “ignorada” não é mais do que uma mentira tática. Como tantos meios de comunicação liberais, Daily Life caiu nessa também. Que surpresa.

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[1] Nota da Tradução: No original, utiliza-se a expressão “pearl-clutcher” que literalmente significa “embreando pérolas”, que indica pessoas com visões conservadoras ou tradicionais e que são facilmente chocadas. Por falta de palavra melhor, em português fica como “moralista” que é o nome que recebem pessoas que por recusarem a visão pró-prostituição atualmente, por supostamente não terem a ‘mente livre’ de preconceitos à sexualidade de outros.

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