Capítulo 1 de “Vagina Industrial” por Sheila Jeffreys

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A Vagina Industrial – A economia política do comércio do sexo global

Sheila Jeffreys

 

Tradução deste capítulo foi feito por Carol Correia, de forma gratuita a fim de ampliar a discussão sobre a prostituição.

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Capítulo 1: Feministas e a indústria do sexo global

Líderes de torcida ou críticas?

 

As indústrias nacionais de sexo e a indústria do sexo global estão experimentando atualmente um crescimento surpreendente, além de níveis de lucro (IBISWorld, 2007; Poulin, 2005). Em consonância, os muitos problemas que agora estão sendo reconhecidos como intrinsecamente ligados à indústria, danos que prejudicam a saúde das mulheres e das meninas (Jeffreys, 2004), o crime organizado e a corrupção (M. Sullivan, 2007), o tráfico (Farr, 2004; Monzini, 2005), a sexualização precoce das meninas (American Psychological Association, 2007), estão crescendo rapidamente. É surpreendente neste contexto que muitas teóricas e pesquisadores sobre a prostituição que se definem como feministas, ou se preocupam principalmente com os interesses das mulheres, estão cada vez mais usando eufemismos em sua abordagem à prostituição. A linguagem das teóricas feministas sobre a prostituição foi afetada pela normalização da indústria nas últimas décadas do século XX. Embora algumas tenham permanecido críticas (Barry, 1995; Jeffreys, 1997; Stara e Whisnant, 2004), muitas começaram a usar uma linguagem mais em sintonia com economistas neoliberais, como Milton Friedman, que pediam a descriminalização da prostituição e seu tratamento como qualquer outra indústria. Começaram a usar termos como “agência”, “empreendedorismo” e “escolha racional” para descrever a experiência de mulheres prostituídas. Estas abordagens são uma vitória de relações públicas para a indústria do sexo internacional. Neste capítulo, analisarei criticamente a linguagem e as ideias neoliberais que muitas feministas adotaram para ver se elas são adequadas às novas realidades.

Os principais vetores da linguagem neoliberal em relação à prostituição são as agências de trabalho sexual criadas ou financiadas pelos governos para fornecer preservativos a mulheres e homens prostituídos contra a transmissão do HIV. Este “dinheiro do AIDS” criou uma poderosa força de organizações de direitos dos trabalhadores do sexo que assumem a posição de que é apenas um trabalho como qualquer outro e agora um setor de mercado útil que deve ser descriminalizado. Os principais propagandistas deste movimento argumentam que o financiamento da AIDS tem sido crucial para seu sucesso em impulsionar o argumento da descriminalização (Doezema, 1998b). O agrupamento internacional dessas organizações de trabalho sexual é a Rede de Projetos de Trabalho Sexual (NSWP), que utiliza o entendimento neoliberal da prostituição para coordenar a campanha internacional de descriminalização através do trabalho de ativistas como Laura Agustin (2004, 2006b) e Jo Doezema (1998b). Jo Doezema, porta-voz do NSWP, argumenta que o dinheiro da AIDS deu um grande ímpeto à campanha. Ela diz: “O impulso original para o NSWP veio da enorme quantidade de interesse em trabalhadores do sexo devido à pandemia de AIDS. Vastas quantidades de recursos foram transferidos para projetos e pesquisas para impedir que os profissionais do sexo espalhem a AIDS” (Murphy e Ringheim, n.d.). Kamala Kempadoo, importante pesquisadora na área do turismo sexual e da prostituição no Caribe, que assume uma posição de trabalho sexual, faz eco à importância do dinheiro para a AIDS: “alguns trabalhos de prevenção da AIDS contribuíram para a formação de novas organizações de profissionais do sexo, em que, sem intenção, empoderou trabalhadoras do sexo em outras áreas além de apenas em questões de saúde” (Kempadoo, 1998, p.19).

Com o advento do financiamento da AIDS, trabalhadoras do sexo ativistas ganharam plataformas e uma autoridade como especialistas em uma suposta crise de saúde pública, que permitiu a criação de um grupo forte de lobby pró-trabalho sexual internacional. Trabalhadoras do sexo ativistas, por vezes, direcionam fúria àqueles que apontam os malefícios da prostituição e essa raiva pode influenciar as feministas que anteriormente criticaram a prostituição em mudar suas posições (B. Sullivan, 1994). Em um exemplo dessa fúria, Cheryl Overs refere-se ao trabalho de feministas acadêmicas que desafiam o tráfico de mulheres e criticam a prostituição como “a trapalhada sobre a escravidão sexual produzida nos departamentos de ‘estudos de mulheres’ americanos e exportada em flagrante ato de Imperialismo cultural” (Doezema, 1998a, p. 206). A influência da posição do trabalho sexual tem sido mais acentuada nas políticas internacionais de saúde, ONU/AIDS e OIT (Oriel, em breve). A posição é confortável para os governos e agências da ONU adotarem porque não oferece nenhum desafio aos direitos dos homens de comprar mulheres para o sexo. Representa um retorno à situação do século XIX, antes que as feministas iniciassem a campanha contra os atos de doenças contagiosas no Reino Unido na década de 1860 (Jeffreys, 1985a). Naquela época, o comportamento masculino a cerca prostituição, que é a compra de mulheres para o sexo, era uma prerrogativa incontestada. Havia sobreviventes da prostituição que criaram organizações nos anos 1980 e 1990 nos Estados Unidos de um ponto de vista muito diferente, como o WHISPER (“Mulheres feridas em sistemas de prostituição engajadas em revolta”) (Giobbe, 1990) e SAGE (Posicionando-se Contra a Exploração Global) Hotaling, 1999) e Breaking Free (V. Carter, 1999). Todos esses grupos argumentam que a prostituição deve ser entendida como violência contra a mulher, mas seus pontos de vista não têm sido tão influentes, talvez porque não se enquadram tão bem na política e na prática da economia neoliberal.

A posição do trabalho sexual apelou às feministas socialistas, em particular, porque elas estavam dispostas a ver a prostituição como uma questão de direitos dos trabalhadores e não de violência contra as mulheres. A teoria e a ação feminista socialista focaram menos na violência contra as mulheres e mais em questões de trabalho e economia. A posição do trabalho sexual também teve uma influência considerável no debate feminista, porque muitos acadêmicos feministas e ativistas de diferentes pontos de vista estavam interessados em ouvir e respeitar as opiniões das mulheres que se representavam como tendo experiência de prostituição e as porta-vozes de organizações pró-trabalho sexual eram geralmente acríticas (Jeffreys, 1995). Quando alguns grupos de trabalho do sexo disseram que a prostituição era uma experiência positiva, um exercício de escolha pessoal e deveria ser visto como um trabalho legítimo, alguns acharam difícil discordar. O fato de existirem sobreviventes expressando perspectivas muito diferentes e que a adoção de uma perspectiva de trabalho sexual envolveu uma escolha consciente em rejeitar essas outras visões, não causando tanta preocupação quanto deveria ter causado. As feministas radicais, por outro lado, não estavam dispostas a considerar a prostituição como um trabalho comum, porque seus antecedentes residiam na pesquisa e no trabalho sobre a violência contra as mulheres, particularmente a violência sexual. Reconheceram as semelhanças entre a experiência das mulheres prostituídas e as vítimas de estupro, como a necessidade de dissociar-se emocionalmente de seus corpos para sobreviver e sofrer sintomas de choque pós-traumático e sentimentos negativos sobre seus corpos e seu self (Jeffrey, 1997, Farley, 2003).

A filósofa feminista radical Kathy Miriam explica a motivação aparentemente positiva por trás da adoção da posição profissional do sexo. Ela diz que essa posição “molda os direitos dos trabalhadores do sexo em termos de uma política de ‘reconhecimento'” que “gira sobre a ‘identidade’ como seu fulcro moral/político e visa corrigir os danos ao status, como estigma e degradação, danos ou injustiças básicas infligidas a certos grupos identitários” (Miriam, 2005, p.7). Quando essa abordagem é aplicada à prostituição, “a estigmatização das prostitutas – e não a estrutura da própria prática – torna-se a injustiça básica a ser corrigida pelos defensores do trabalho sexual” (ibid.). Miriam explica que, embora esta abordagem possa muito bem ser fundada na motivação positiva de fazer justiça a um grupo estigmatizado, torna muito difícil ver as “relações de dominação e subordinação” que estão subjacentes à prostituição, particularmente em formas que vão além da força óbvia. Embora o impulso em adotar uma posição de trabalho sexual pudesse ter sido progressista por parte de muitos dos teóricos e ativistas que a adotaram, a linguagem e os conceitos da posição são precisamente os que melhor se adequam à atual ideologia econômica do neoliberalismo. Eles podem, como Miriam aponta, virar para um individualismo descontextualizado de escolha pessoal, que está muito longe da política de gênero, raça e classe que está na raiz do socialismo e do feminismo radical. Podem até chegar ao ponto de apoiar um mercado livre, uma abordagem desregulacionista da prostituição que se adapte aos interesses dos industriais do sexo, em vez das meninas e mulheres envolvidas na indústria. Como as feministas radicais têm se concentrado mais na política do pessoal, como as relações de poder são representadas nas relações cotidianas das mulheres com os homens, tendem a ser bem menos representadas na teorização da política internacional do que as feministas socialistas. Essas feministas radicais que vêm escrevendo na área da política internacional tenderam a se concentrar em questões de violência contra as mulheres, incluindo a prostituição (Kelly, 2000; Jeffreys, 1997; Barry, 1995). A posição do trabalho sexual, portanto, tendeu a predominar na teoria política feminista internacional através do trabalho feminista socialista que privilegia a abordagem dos direitos dos trabalhadores ou da política de identidade.

Prostituição como trabalho reprodutivo

Um dos resultados da adoção da posição de trabalho sexual é que muitas teóricas feministas da economia política internacional concentraram a prostituição no trabalho doméstico na categoria de “trabalho reprodutivo” (Peterson, 2003; Jyoti Sanghera, 1997). Quando críticas feministas sérias da globalização mencionam a prostituição, ela não é geralmente problematizada, uma vez que o trabalho reprodutivo é uma área de trabalho feminino que essas teóricas tendem a valorizar em compensação pelo modo como o trabalho das mulheres, particularmente o trabalho não remunerado no lar, tem sido ignorado na teoria da economia. Teóricos como Spike Peterson (2003), Barbara Ehrenreich e Arlie Hochschild (2003), têm apontado que o “setor de serviços”, que está se tornando cada vez mais significativo nos países ricos, uma vez que a produção é terceirizada para o mundo pobre, representa a uma larga extensão de trabalho que as mulheres sempre realizaram na esfera privada sem remuneração. Uma vez comercializado como “serviços”, este trabalho atrai pagamento sob a forma de trabalho doméstico ou trabalho de cuidado. Esses autores, de forma menos convincente, aderem à prostituição essa análise e apontam para o “trabalho sexual” como “serviços sexuais”. Identificar a prostituição como uma forma de trabalho reprodutivo é um erro de categoria. O trabalho doméstico enquadra-se nesta categoria de uma forma que a prostituição não o faz, especialmente porque o “trabalho reprodutivo” é definido como “socialmente necessário” (Jyoti Sanghera, 1997). Embora, sem dúvida, a preparação de alimentos e cuidados de crianças é “socialmente necessário” e, de fato, os homens podem, embora não muito no presente, fazê-lo também, a prostituição não é. A ideia de “necessidade social” em relação à prostituição aplica-se especificamente aos homens. A prostituição é uma ideia socialmente construída (Jeffreys, 1997) de comportamentos que podem ser necessários à manutenção da dominação masculina, mas não é de nenhuma maneira socialmente necessário para as mulheres.

Há outro problema em reconhecer os “serviços sexuais” como parte do trabalho reprodutivo. Isso poderia implicar que fornecer acesso sexual aos homens enquanto se desassocia é uma parte comum do trabalho das mulheres em casa, o que minaria décadas de trabalho feminista para acabar com a exigência de que mulheres se envolvam em sexo indesejado que não tenha ligação com o seu prazer. A prostituição pode terceirizar essa parte das obrigações das mulheres sob a dominação masculina que elas mais desprezam e são particularmente prejudicadas por. Não é o mesmo que a limpar a casa ou assar bolos. Uma boa indicação disso é o fato de que a juventude e a inexperiência são os aspectos mais valorizados de uma menina induzida à prostituição. Ela nunca será tão valiosa para seus manipuladores como no momento em que ela é violada pela primeira vez, que pode ser tão cedo quanto 10 anos de idade (Saeed, 2001). As empregadas domésticas não são mais valiosas quando são crianças e não sabem o que estão fazendo. É mais útil considerar a prostituição como a terceirização da subordinação das mulheres, em vez da terceirização de uma forma ordinária de serviço de trabalho que “acontece de ser realizada por mulheres”.

Escolha e agência

A posição de trabalho sexual emprega uma abordagem individualista, representando os diversos aspectos da prostituição, como o stripping, áreas em que as mulheres podem exercer a escolha e a agência ou até mesmo serem ‘empoderadas’ (Hanna, 1999; Liepe-Levinson, 2002; Egan, 2006). Esta abordagem contrasta bastante com a industrialização da prostituição que vem ocorrendo nas últimas décadas. Como observa Carole Pateman, quando as feministas socialistas adotam esta abordagem à prostituição, elas acabam sendo mais positivas e cegas ao contexto em relação à prostituição do que em relação a outros tipos de trabalho, entendidos como sendo feitos em relações de dominação e subordinação (Pateman, 1988). Até recentemente, a posição do trabalho sexual estava confinada principalmente a pesquisas sobre formas de prostituição no ocidente, onde as mulheres prostituídas podiam ser vistas por teóricos como “escolha” em qual haveria a possibilidade de se envolver em uma variedade de ocupações para manter a subsistência. Agora, no entanto, o uso da linguagem liberal individualista e até mesmo a teoria da escolha racional, foi estendido para descrever as situações mais impressionantemente improváveis fora do oeste.

Alys Willman-Navarro, por exemplo, usa a linguagem da escolha racional em um número da revista Research for Sex Work, sobre “Trabalho sexual e Dinheiro” (2006). A revista publica material de organizações de trabalho sexual de diferentes países. Ela analisa a literatura de pesquisa mostrando que mulheres prostituídas em Calcutá e no México praticam sexo com prostituidores sem preservativos porque sabem que “profissionais do sexo estão dispostas a realizar sexo desprotegido de modo a serem compensadas por fazê-lo, enquanto aquelas que preferem usar preservativos ganham menos”, uma perda que pode ser de até 79% dos ganhos (Willman-Navarro, 2006, p.18). Tal pesquisa, diz ela, mostra “profissionais do sexo” como “agentes racionais dando resposta aos incentivos” (ibid., p.19). A “escolha” entre a chance de morte por HIV/AIDS e a capacidade de alimentar e educar seus filhos não oferece alternativas realistas suficientes para se qualificar como um exercício de “agência”. No entanto, Willman-Navarro permanece otimista em sua abordagem: “Na Nicarágua conheci profissionais do sexo que mal conseguem se financiar face às despesas. Conheci outras que enviam seus filhos para algumas das melhores escolas da capital… Não fizeram isso com uma noite de sorte, mas através de anos de escolhas racionais.” As mulheres na prostituição, diz este relato, podem ser empreendedoras de sucesso se apenas agirem racionalmente.

Outro exemplo dessa abordagem individualista pode ser encontrado no trabalho de Travis Kong (2006) sobre mulheres prostituídas em Hong Kong. A determinação de Kong em respeitar as mulheres como auto-acertadas e possuidoras de agência leva a uma abordagem individualista bastante em desacordo com o que a própria pesquisa revela sobre as condições da existência das mulheres. Kong adota a abordagem glamourizada da prostituição para defini-la como trabalho emocional. O conceito de trabalho emocional, desenvolvido por Arlie Hochschild (1983), é muito útil para analisar grande parte do trabalho remunerado e não remunerado que as mulheres fazem, como a aeromoça em aviões. Quando este conceito é transferido para a prostituição, no qual o que é feito para dentro e fora dos corpos das mulheres é o próprio coração do “trabalho”, sugere um reconhecimento enjoadíssimo de detalhes físicos envolvidos e requer uma separação entre a mente e o corpo. Uma grande parte do trabalho “emocional” da prostituição é a construção de medidas que permitam uma dissociação da mente do corpo para sobreviver ao abuso (Farley, 2003). Este não é um componente usual do “trabalho emocional”. Kong diz que usará uma “concepção pós-estruturalista de poder e formação de identidade” e “retratará minhas entrevistadas como executando o trabalho emocional qualificado do sexo em troca do dinheiro de seus clientes… Argumento que seu grande problema não é com a transação comercial… mas com o estigma social, a vigilância e os perigos em seu local de trabalho” (Kong, 2006, p.416). Essas mulheres, explica Kong, são “trabalhadoras independentes” e ela expressa um certo desapontamento quanto à forma “apolítica e convencional” que elas são, em contraste com a “imagem de uma minoria sexual e política transgressiva que foi retratada no modelo de agência do feminismo pró-prostituição” (Kong, 2006, p.415). Mas quando os fatos de suas condições de trabalho são mencionados, parecem ser sobre o uso de seus corpos em vez de suas mentes: “Desde que eles têm ejaculado em nós… Eles não violam outras mulheres… e eles não perdem a paciência quando eles vão para casa… Eles não vão ejacular em suas esposas quando eles chegarem em casa” (Kong, 2006, p.420). O exemplo dado de como elas têm que desenvolver “técnicas de trabalho qualificadas” é “elas têm que aprender a fazer felação” (Kong, 2006, p.423). É interessante notar que um relatório de 2007 sobre a indústria do sexo australiana afirma, para o benefício daqueles que procuram criar bordeis, que o trabalho não exige nenhuma capacitação (IBISWorld, 2007).

A abordagem pós-colonial

Expositores da posição de trabalho sexual podem ser muito críticos com as feministas que procuram abolir a prostituição e o tráfico de mulheres. Uma das principais formas de crítica é que as feministas que buscam abolir a prostituição “vitimizam” as mulheres prostituídas ao não reconhecerem sua “agência”. Isso tem sido empregado contra ativistas anti-tráfico e feministas que procuram acabar com a prostituição, que são ditas por ‘vitimizar’ mulheres prostituídas (Kapur, 2002). Essa crítica não é recém-criada em relação à prostituição, mas tem sido comum às críticas feministas liberais dos movimentos anti-estupro e anti-pornografia, como o trabalho de Katie Roiphe nos Estados Unidos (Roiphe, 1993; Denfeld, 1195). As feministas liberais americanas do início da década de 1990 argumentaram que é importante reconhecer a agência sexual feminina. Elas disseram que a conversa sobre a violência sexual e os danos que as mulheres sofrem nas mãos dos homens mostra uma falta de respeito pelas escolhas sexuais e pela liberdade sexual das mulheres. É interessante notar que essa ideia foi retomada pelas feministas pós-coloniais para criticar as feministas radicais, como no trabalho de Ratna Kapur (2002).

Kapur diz que aquelas que “articulam” o “sujeito vítima”, como se sugerisse que as mulheres prostitutas são oprimidas ou prejudicadas, baseiam seus argumentos no “essencialismo de gênero” e generalizações que refletem os problemas de mulheres brancas, ocidentais, de classe média, heterossexuais privilegiadas (Kapur, 2002, p.6). Esta acusação implica que aquelas que identificam as mulheres como sendo oprimidas são “classistas” pelo próprio fato de fazer essa identificação. Tais argumentos baseiam-se também no “essencialismo cultural”, retratando as mulheres como vítimas de sua cultura, diz Kapur. Os culpados dessas práticas racistas e classistas são aqueles que trabalham contra a violência. Ela identifica Catharine MacKinnon e Kathleen Barry em particular e ativistas anti-tráfico que “se concentram em violência e vitimização”. As campanhas contra a violência contra as mulheres, diz ela, “levaram as feministas de volta a um discurso protecionista e conservador” (ibid., p.7). As feministas antiviolência são acusadas de usar “metanarrativas” e de apagar as diferenças entre as mulheres e de uma falta de complexidade que “configura um sujeito completamente desprovido de poder e desamparado” (ibid., p.10). Contudo, não são apenas as feministas “ocidentais” que Kapur critica por esses solecismos, mas também as indianas que passam a ser ativistas contra a violência. Eles também negam a “própria possibilidade de escolha ou agência”, dizendo que o “trabalho sexual” no Sul da Ásia é uma forma de exploração (ibid., p.26). Ela é crítica do que ela percebe como uma aliança entre “feministas ocidentais e feministas indianas” na área dos direitos humanos como resultado de que “o sujeito vítima tornou-se um sujeito ahistórico, descontextualizado, disfarçado superficialmente como a vítima do dote, como vítima de homicídios de honra ou vítima de tráfico e prostituição” (ibid., p.29).

Outro argumento que Kapur faz é que a prostituição é transgressiva. Esta ideia enquadra-se na posição pró-liberdade sexual da nova Esquerda que levou à promoção da pornografia por aqueles que criaram a “contracultura” dos anos 1960 e 1970 (ver Jeffreys, 1990/91). Ela argumenta que a abordagem correta para as teóricas feministas é, portanto; “concentrar-se em momentos de resistência” e, assim, interromper a “narrativa linear produzida pelas campanhas de violência contra as mulheres” e isso complicará o binário do Ocidente e o Oriente” (ibid., p.29). Ela explica que ela escolhe fazer isso colocando em primeiro plano a “trabalhadora do sexo” porque “suas alegações como mãe, artista, trabalhadora e sujeito sexual rompem as normas sexuais e familiares dominantes. Na Índia pós-colonial, suas performances repetidas também desafiam e alteram as normas culturais dominantes. De sua localização periférica, a trabalhadora do sexo traz um desafio normativo ao negociar sua identidade negada ou marginalizada dentro de discursos mais estáveis e dominantes” (ibid., p.31). Mas a ideia de que as mulheres prostituídas transgridem as normas sociais da heterossexualidade e da família heteropatriarcal não é de forma alguma clara na Índia e no Paquistão, onde as formas de prostituição familiar prosperam (Saeed, 2001; Agrawal, 2006b).

Em sua pesquisa sobre a prostituição familiar em Bombaim nas décadas de 1920 e 1930, Ashwini Tambe refuta especificamente a noção de que as mulheres prostituídas devem ser vistas como transgressoras (Tambe, 2006). Ela enfatiza a continuidade entre famílias e bordeis. Ela diz que a teoria feminista está errada em sempre localizar a prostituição “fora do âmbito das instituições familiares oficiais” (Tambe, 2006, p.220). Ela critica a ideia apresentada pelo que ela chama de “radicais sexuais” de que a prostituição tem o potencial de “cortar a ligação entre sexo e intimidade de longo prazo e permitir o desempenho de sexualidades não domesticadas que desafiam prescrições comuns da passividade feminina” (ibid., p.221). O que, ela pergunta, “o que fazemos de profissionais do sexo que são, efetivamente, domesticados?” (Ibid., p.221). Ela cita estudos nacionais da Índia no presente que mostram que 32% das mulheres prostitutas “kith e kin” foram responsáveis pela sua entrada na prostituição e que 82% das prostitutas em Bombaim têm e criam filhos em bordeis. Estruturas familiares exatamente semelhantes existem em bordeis de Calcutá também, ela aponta. Muitas mulheres prostituídas permanecem em bordeis porque nasceram lá. Em seu estudo histórico, ela descobriu que maridos e mães entregavam meninas e mulheres para bordeis. Guardiões de bordeis adotaram papéis maternos em relação às meninas entregues a eles. Os membros da família colocam as meninas na prostituição através do sistema devadasi e em castas que tradicionalmente praticavam ‘entretenimento’ para seu sustento, meninas e mulheres apoiavam famílias inteiras através da prostituição combinada com dança e música. Tambe ‘adverte contra’ a celebração do ‘potencial liberatório do trabalho sexual e da vida do bordel’ e é crítico com os ‘radicais sexuais’ que dizem que ‘o trabalho sexual pode ser uma fonte de agência e resistência’ (ibid. p.236-7).

Mas Kapur vai mais longe na sua romantização da prostituição, afirmando que a agência das mulheres que a perspectiva antiviolência as transforma em “vítimas” está “no reconhecimento de que o sujeito pós-colonial pode dançar, através do edifício trêmulo do gênero e cultura, trazendo a este projeto a possibilidade de imaginar uma política mais transformadora e inclusiva” (Kapur, 2002, p.37). Em seu elogioso comentário sobre o trabalho de Kapur, Jane Scoular faz a base dessa abordagem, que ela identifica como “pós-moderna”. Ela diz que essa teorização, “mantendo uma distância crítica de fatores estruturais opressivos”, permite que teóricos “resistam às tentativas de ver o poder como força esmagadora e consumidora do sujeito”, criando espaço para uma teoria feminista “transformadora” que busca “utilizar o potencial disruptivo do sujeito contra hegemônico e ‘resistir’ a desafiar relações hierárquicas” (Scoular, 2004, p.352). Se as relações de poder são menosprezadas, então é mais fácil ver as mulheres prostituídas como “dançarinas”. Em contraste, A Vagina Industrial é diametralmente oposta à ideia de manter uma distância de “fatores estruturais” que subjazem a prostituição; em vez disso, procura torná-los mais visíveis.

A abordagem de Kapur é ecoada no trabalho de Jo Doezema, que argumenta que as feministas “ocidentais” vitimizam as mulheres prostituídas do Terceiro Mundo (Doezema, 2001). Ela também é ferozmente crítica com o trabalho de militantes feministas contra o tráfico, como Kathleen Barry e a Coalizão contra o Tráfico de Mulheres (CATW), acusando-as do que ela chama de “neocolonialismo” em sua atitude para com as mulheres prostituídas no Terceiro Mundo (ibid.). Ela diz que a atitude de que as mulheres do Terceiro Mundo – e as prostitutas em particular – são vítimas de suas culturas (retrógradas, bárbaras) está difundida na retórica da CATW (Doezema, 2001, p.30). Ela é severa em suas críticas às feministas envolvidas no trabalho anti-tráfico, dizendo que elas estão envolvidas em “relações de dominação e subordinação” (ibid., p.23), ou seja, as feministas são as opressoras aqui, uma construção que muito eficazmente apaga a dominação masculina do quadro. Mas, como Kapur, ela tem que lidar com o problema que, como ela admite, muitas ativistas feministas indianas também são abolicionistas e estão envolvidas no CATW. Em seu relato, essas mulheres se tornam “enganadas” por aceitarem uma posição ocidental e colonialista em relação à prostituição e abandonarem seus próprios interesses.

Embora Doezema seja incansavelmente positiva em relação à prostituição em seus escritos e trabalho de advocacia mais recente, é interessante notar que ela era bastante sincera sobre os malefícios da prostituição como ela mesma os experimentou em Amsterdã, antes de se envolver na Rede de Projeto de Trabalhadoras Sexuais. Em uma entrevista de meados da década de 1990, ela disse que “todos os bordeis são realmente uma merda” (Chapkis, 1997, p.117). Ela disse: “você está lutando o tempo todo para impedir com que o cliente faça coisas que você não quer e tentar mantê-lo satisfeito ao mesmo tempo” (ibid., p.119). Em certa ocasião, no trabalho de acompanhante, ela tinha um “cliente” que estava “realmente bêbado e um pouco louco e…. Eu não penso muito nisso [naquele dia]” (ibid., p.119). Ela estava com tanto perigo que ela diz que não disse a seus amigos porque “eles teriam dito: ‘Você está parando agora; não faça isso de novo.” Eu não queria parar, então nunca ousei dizer a ninguém (ibid., p.120). Ela comenta que “para quase todo mundo eu faço da prostituição mais positivo do que é, porque todo mundo já tem uma ideia tão negativa sobre. Então você tende a falar apenas sobre as coisas boas ou as coisas engraçadas” (ibid., p.120). Em outras palavras, ela minimiza deliberadamente os graves danos da prostituição que ela experimentou. Sua atitude em relação a ter que sofrer atos sexuais indesejados, o que seria chamado de assédio sexual ou agressão sexual fora do contexto da prostituição, é culpar a si mesma: “Claro, ainda há momentos em que eu aturo algo de um cliente que eu não quero que aconteça, porque estou muito cansada ou não sei como dizer que não quero. Mas aprendi agora a lidar com isso; em vez de pensar: “Ah, eu sou a pior prostituta do mundo”, eu só penso: “Ok, da próxima vez faço melhor” (ibid., p.122). Atualmente, a Doezema, junto com outras colegas ativistas de trabalhadores do sexo, minimiza os malefícios da prostituição para conseguir a descriminalização da indústria. A minimização do dano é uma prática comum entre as mulheres prostituídas, que rotineiramente bloqueiam ou minimizam a violência que experimentam dentro e fora da prostituição (Kelly e Radford, 1990; Gorkoff e Runner, 2003).

 

Respostas das feministas radicais à abordagem da “agência”

A abordagem do sexo profissional para a indústria da prostituição tem sido fortemente desafiada em muitos níveis por críticas feministas radicais. As teóricas do feminismo radical têm sido extremamente críticas em particular com o que elas identificam como o individualismo liberal de estudiosos e ativistas que enfatizam a importância da “agência” das mulheres e se concentram na liberdade de ação da mulher prostituída individual em contradição com as relações de poder opressivas dentro do qual ela atua (Pateman, 1988; Miriam, 2005). A abordagem da “agência” é usada na teoria feminista em relação a outras questões como o véu, maquiagem e moda, bem como a prática sexual. Rosalind Gill abordou os problemas envolvidos nesta abordagem para a política de aparência (Gill, 2007). Ela explica que uma abordagem que se concentra em “escolhas autônomas” permanece cúmplice, em vez de crítica, dos discursos pós-feministas e neoliberais que veem os indivíduos como atores empreendedores racionais, calculadores e auto reguladores” (Gill, 2007, p.74). Escritores pró-trabalho sexual praticam precisamente a abordagem problemática que ela critica em sua interpretação das experiências das mulheres traficadas: “O sujeito neoliberal é obrigado a assumir toda a responsabilidade pela biografia de suas vidas, por mais severas que sejam as restrições às suas ações… Assim como o neoliberalismo exige que os indivíduos narrem sua história de vida como se fosse o resultado de escolhas deliberativas” (ibid.). Ela pergunta por que é que tanta teoria feminista tem escolhido a linguagem de “escolha” e sugere que é porque uma perspectiva pós-feminista não permite mais o reconhecimento da opressão das mulheres: “Existe um subtexto para isso? Um subtexto pós-feminista que já não vê as mulheres como oprimidas” (ibid.).

Kathy Miriam aborda a forma como a abordagem “agência” é empregada em relação ao tráfico de mulheres em particular e caracteriza bem o individualismo liberal problemático que está subjacente a esta abordagem (Miriam, 2005). Ela argumenta que a abordagem do trabalho sexual “depende de um modelo contratual e liberal de agência que oculta e pressupõe o lado da demanda da instituição da prostituição” e também esconde as relações de poder dentro das quais as mulheres são prostituídas (Miriam, 2005, p.2). A abordagem feminista radical, por outro lado, “desafia radicalmente o feminismo a teorizar o poder e a agência fora de um quadro liberal” (ibid., p.2). As relações de poder nas quais a prostituição ocorre são fundadas, argumenta ela, usando o excelente desenvolvimento de Pateman deste conceito (Pateman, 1988), sobre o direito ao sexo para homens. Sob a dominação masculina, ela explica, “o direito dos homens a serem atendidos sexualmente não é negociável, enquanto tudo das mulheres é possível negociar (ibid. p.14).

É o fato de que o direito ao sexo do homem não poder ser questionado que cria o maior desafio para as feministas na luta contra a prostituição: “essa relação legitimada e enraizada definida pelo direito dos homens de exigir acesso às mulheres é a concepção central do poder masculino em jogo para o movimento feminista abolir a prostituição” (ibid., p.13). Sob um sistema político em que essa demanda masculina é entendida como simples impulso sexual ou iniciação sexual, torna-se problemática toda a ideia de que as mulheres possam expressar “agência sexual”, uma ideia central para a posição pró-trabalho sexual. Apenas podem expressar “agência” através da resposta à demanda e permitir o acesso; nenhuma outra possibilidade está aberta. Mas porque o desejo sexual masculino é visto como um fato da vida, a própria demanda pela prostituição em si é inquestionável. O lobby pró sexo não pode ver isso porque “o poder masculino é invisível a ele como dominação e apenas inteligível como força coercitiva” (ibid.). Miriam faz o ponto importante de que agência e opressão não estão em contradição um com o outro. As mulheres exercem agência para sobreviver às relações de poder e às circunstâncias opressivas em que se encontram. A tarefa teórica, argumenta Miriam, é que a teoria feminista radical “teoriza a liberdade em termos do poder político coletivo das mulheres: esta tarefa requer uma compreensão de que a liberdade não está negociando com uma situação tomada como inevitável, mas sim uma capacidade para transformar radicalmente e/ou determinar a própria situação” (ibid., p.14). A aceitação genérica dentro do ativismo feminista e da teoria da posição do trabalho sexual representa uma adaptação à construção dominante masculina da pulsão sexual dos homens e do direito dos homens de se apropriar dos corpos das mulheres para atuar. Nesse sentido, é uma derrota da ideia de que o feminismo pode recriar o sexo como igualdade erotizada (Jeffreys, 1990/91) e liberar as mulheres da tirania do direito ao sexo dos homens.

Os ganhos de mulheres prostituídas

Embora as mulheres possam, na abordagem do trabalho sexual, serem vistas como exercendo uma “agência”, é improvável que elas tragam grande benefício econômico, embora possam ganhar mais do que outras mulheres não qualificadas. A abordagem que enfatiza a escolha racional das mulheres para entrar na prostituição com base nos ganhos que elas podem fazer nele (Willman-Navarro, 2006) é contradita por uma análise mais crítica e cuidadosamente calculada. A investigação está apenas começando a ter lugar na economia da prostituição do ponto de vista das mulheres que são prostituídas. Embora a prostituição forme um setor econômico global cada vez mais rentável, os lucros vão em grande parte para aqueles que controlam o negócio e não para as próprias mulheres prostituídas. Mulheres prostituídas em Hong Kong, por exemplo, mal conseguem fazer o suficiente para sobreviver. A ONG Zi Teng (2006), escrevendo sobre “trabalhadoras do sexo” migrantes chineses em Hong Kong, explica que há uma mão-de-obra redundante de 150 milhões de pessoas no campo chinês. As taxas de desemprego mais elevadas entre as mulheres levam-nas a mudar-se para Hong Kong e à prostituição, onde ganham salários escassos de 20 dólares por “serviço” e têm uma média de três clientes por dia. Zi Teng descreve o abuso físico que sofrem e o problema de serem roubadas. Como é comum na prostituição, elas se envolvem em sexo sem preservativos, a fim de obter os poucos clientes que são capazes de atrair. A maioria das mulheres prostituídas que Zi Teng estudou “não insiste que seus clientes usem preservativos”. No entanto, Zi Teng não coloca isso em uma luz tão positiva como Willman-Navarro (2006) e explica a falta de uso do preservativo como resultado da relutância dos clientes e da preocupação das mulheres prostitutas de não “afetar o negócio” (Zi Teng, 2006, p.30).

A situação não foi marcadamente diferente para mulheres prostituídas em Nova York. Juhu Thukral, em um estudo de “Trabalhadoras sexuais e Finanças” em Nova York, descobriu que a prostituição não era um trabalho regular para as 52 mulheres entrevistadas (Thukral, 2006, p.22). As mulheres “entraram e saíram do trabalho sexual fora das ruas” e “o dinheiro feito através do trabalho sexual é muitas vezes rapidamente feito e rapidamente gasto”, o que manteve as mulheres na prostituição. Metade das mulheres queria poupar dinheiro, mas achou isso muito difícil. 38% das participantes disseram que “não atingiram regularmente seu objetivo financeiro ao trabalhar… As quatro mulheres traficadas relataram ter sofrido abusos físicos e verbais quando não alcançaram a meta” (ibid., p.23). A situação das mulheres traficadas era particularmente terrível: “As mulheres traficadas raramente conseguiam manter o dinheiro que ganhavam, o que era relatado em apenas US$ 13 por cliente ou pouco mais da metade das receitas de uma sessão de US$ 25 em um bordel que atendia a imigrantes latinos” (Ibid., p.23). A necessidade de fazer algum dinheiro rivalizava com o desejo de manter-se segura, de modo que uma entrevistada descreveu como ela só “saía com algum dos clientes” quando “sob o efeito de algo”. Se sóbria, ela preferia passar fome ao invés de enfrentar os perigos. Espera-se que mulheres prostituídas em Nova York ganhem mais benefícios econômicos com a prostituição do que mulheres em países pobres, mas isso não é bem o caso. Um relatório de 2006 sobre a indústria de clubes de strip-tease e bordeis legalizados na Austrália, ao mesmo tempo em que encerra a lucratividade da indústria, cita uma pesquisa de Sydney que concluiu que, após as despesas do bordel, um terço das mulheres ganhava até US$ 500 por semana. 20% ganhavam entre US$ 800 e US$ 1.000 e outras 20% ganhavam mais de US$ 1.000 (IBISWorld, 2007). Estes não são certamente ganhos elevados e são susceptíveis de serem restritos ao curto número de anos que as mulheres permanecem na indústria. Eles não revelam o que as mulheres são capazes de ganhar ao sair. No entanto, o relatório afirma que os salários médios tinham diminuído nos últimos cinco anos como resultado de uma maior concorrência. O sucesso da indústria, ao que parece, pode prejudicar as mulheres prostituídas.

Um estudo particularmente impressionante analisa o efeito da prostituição sobre as perspectivas econômicas de uma mulher ao longo do ciclo de vida. Linda DeRiviere examinou, através de oito estudos de caso e 54 entrevistas, a economia da prostituição na experiência de vida de mulheres prostituídas no Canadá. A maioria das mulheres eram aborígenes e haviam trabalhado em uma variedade de ambientes de prostituição (DeRiviere, 2006). Ela explica que “a literatura atual na América do Norte está cheia de debates sobre se a prostituição é um empreendimento lucrativo e capacitador de atores racionais, que maximizam a utilidade” (ibid., p.367). “A maioria”, ela diz, “propõe que a prostituição é financeiramente lucrativa” e equipara “o comércio do sexo com habilidades empreendedoras”. Representam a “escolha” para entrar no “trabalho sexual” como uma decisão racional na qual o indivíduo “pesa os custos e benefícios pessoais ou a utilidade esperada de se engajar nesse estilo de vida”. DeRiviere, em contraste, olha para a prostituição em Winnipeg, Canadá, ao longo do ciclo de vida. Geralmente, começa na adolescência, com pesquisas canadenses mostrando que 96% das mulheres entram na prostituição antes dos 17 anos e, portanto, levam “custos de oportunidade” como a perda de educação, habilidades, experiência profissional e treinamento no trabalho que poderia permitir que prostituídas deixassem a prostituição e passassem para outra ocupação. É uma situação temporária para a maioria, mas tem um efeito permanente sobre os ganhos da vida e os resultados produtivos. Seus sujeitos de pesquisa foram predominantemente (90,3%) mulheres indígenas. No Canadá, como ela explica, as mulheres indígenas estão exageradamente sobre-representadas na prostituição (ver também Gorkoff e Runner, 2003; Farley e Lynne, 2004). O salário bruto de seus respondentes era $ 27.071 mas as mulheres não receberam esta quantidade para seu próprio uso como há “transferências aos proxenetas e aos sócios dependentes e aos proprietários da agência da escolta” que totalizaram $ 10.068 anualmente ou 37.2%. Drogas e álcool, que são necessários para permitir que as mulheres sobrevivam à prostituição e dissociar do abuso, responderam por 12.617 dólares ou 46,6%. Os ganhos perdidos depois de incidentes violentos etc. somaram US$ 2.305 ou 8,5%. Assim, os fundos excedentes anuais líquidos após subtrair custos substanciais são menos de 8% dos ganhos brutos.

As mulheres que ela estudou sofreram ganhos reduzidos ao longo da vida como resultado dos problemas de saúde física e mental resultantes da prostituição, cujos custos, segundo a estimativa de DeRiviere, superaram em muito os benefícios ao longo da vida da mulher. Ela conclui, a partir de seus oito estudos de caso, que “durante todo o período de envolvimento no comércio sexual, um pequeno prêmio salarial é o único benefício direto da prostituição em nível pessoal. No entanto, tais benefícios são de curto prazo em relação aos anos de trabalho disponíveis do indivíduo e os custos de compensação da prostituição são enormes” (DeRiviere, 2006, p.379).

O desenvolvimento da prostituição

Apesar dos efeitos negativos da prostituição sobre as vidas de mulheres, tem havido uma tendência na teoria feminista de ser positiva em relação à contribuição que as mulheres prostituídas fazem para o “desenvolvimento”. A teorização feminista da prostituição não tem prestado muita atenção crítica ao papel da prostituição no desenvolvimento e a variedade de formas em que a prostituição está ligada ao desenvolvimento ainda não estão incluídos nos estudos de desenvolvimento. Se os autores mencionam a prostituição, é provável que seja no contexto da utilidade das remessas de mulheres prostitutas para o desenvolvimento das economias dos seus países de origem. Aqueles que adotam uma abordagem de trabalho sexual veem a prostituição das mulheres que “migram para o trabalho”, ou seja, as que foram traficadas para a escravidão por dívida, uma vez que as mulheres dos países pobres não têm os recursos ou saibam como “migrar” por si mesmas, como sendo positivamente benéfico para os países em desenvolvimento. Embora a prostituição não traga grandes lucros para a grande maioria das mulheres prostituídas, as mulheres são boas em repatriar para seus países de origem a maior parte de seus ganhos como são capazes de poupar de sua própria subsistência. Isto contrasta com o comportamento dos migrantes masculinos, que são susceptíveis de gastar muito mais do que ganham, incluindo despesas para o seu próprio comportamento como prostituidores de suas próprias camponesas ou outros em seus locais de trabalho (Pesar e Mahler, 2003). Laura Agustin, por exemplo, argumenta que a prostituição é economicamente valiosa em uma peça intitulada “Contribuindo para o ‘Desenvolvimento’: o Dinheiro Fez a Venda de Sexo”. É valioso, diz ela, porque “estudos recentes revelam como o dinheiro enviado para casa por imigrantes financia importantes projetos sociais e estruturais conhecidos como “de desenvolvimento”… Isto vale para o dinheiro feito colhendo morangos… e vendendo sexo… Os montantes significam o mesmo, não importa como eles foram obtidos e são usados para financiar projetos de construção, pequenas empresas e agricultura cooperativa para famílias, comunidades e regiões inteiras” (Agustin, 2006b, p.10). Ela diz que “a maioria das culturas tem suas próprias visões de desenvolvimento e os migrantes que enviam dinheiro para casa contribuíram para a realização dessas visões, incluindo os milhões que vendem sexo” (ibid., p.10).

Jyoti Sanghera faz o mesmo argumento. Ela diz que mulheres prostituídas contribuem para o desenvolvimento de suas “comunidades culturais maiores, financiando a construção de escolas, santuários religiosos, correios e outras instalações de serviços públicos. As remessas de seus ganhos do exterior ajudam seus governos a atender a dívida nacional do país” (Sanghera, 1997, p.10). Além disso, Sanghera argumenta, incentivar os governos a avaliar o valor da prostituição para suas economias seria útil: “As sociedades que permitem que as empresas do sexo floresçam e proliferem podem incluí-las na contabilidade do governo” (ibid.). Essa abordagem positiva não atende os danos da prostituição aos cursos de vida e às possibilidades econômicas daquelas que são prostituídas. Não considera as despesas que os estados podem ter ao entrar para apoiar as meninas e as mulheres que foram prejudicadas quando a idade ou problemas de saúde física e mental não são mais valiosas para a indústria, as despesas de policiamento e a operação do sistema jurídico envolvido na luta contra o tráfico e outros problemas integrantes da indústria.

Não há dúvida de que a prostituição das mulheres tem desempenhado um papel importante no desenvolvimento de muitas economias nacionais e continua a fazê-lo. O que está em questão é se isso deve ser celebrado ou condenado. O papel da escravidão negra na construção da supremacia econômica britânica no século XIX, por exemplo, é considerado motivo de vergonha e não de celebração (Fryer, 1989). Não é óbvio que a contribuição das mulheres prostituídas em servidão de dívidas deve receber um tratamento muito mais positivo. Há evidências de como a prostituição de meninas e mulheres tem contribuído para o desenvolvimento econômico histórico do Japão e da Austrália. A fundação do sistema de “mulheres de conforto” para o exército japonês nas décadas de 1930 e 1940 reside no fenômeno do karayuki-san na segunda metade do século XIX (Tanaka, 2002). Jovens mulheres e meninas de áreas rurais pobres foram sequestradas, enganadas por terem sido oferecidas empregos ou vendidas por seus pais aos traficantes, por meio de métodos muito semelhantes aos usados hoje no tráfico de mulheres. Elas foram contrabandeadas para fora do Japão e vendidas para bordeis em países vizinhos, em particular a China e a costa leste da Rússia. As crianças, algumas das quais eram tão jovens quanto sete anos quando vendidas, foram criadas e treinadas em bordeis nos principais centros de negócios para esta indústria, Vladivostok, Xangai e Cingapura. Elas foram traficadas para bordeis no Sudeste Asiático, Índia, Austrália, Havaí, a Costa Leste dos EUA e até a Cidade do Cabo. Nas décadas seguintes a 1868, seu número aumentou rapidamente. O tráfico de karayuki replica de perto o tráfico que ocorre hoje. As meninas foram vendidas por US$ 500-800 para bordeis e, em seguida, estavam em servidão por dívida, muitas vezes encontrando-se amarradas em serviço da dívida por muitos anos. Muitas nunca viram suas casas novamente e muitas cometeram suicídio. Em 1910, o número de karayuki-san registado era mais de 19.000, enquanto que o equivalente na prostituição no Japão era de apenas 47.541. O tráfico estava bem organizado através de organizações de crime estabelecidos, como os Yakuza, que tradicionalmente estavam envolvidos neste comércio.

Yuki Tanaka usa o trabalho das historiadoras feministas japoneses desde a década de 1950 para argumentar que esta forma de tráfico de mulheres era crucial para o rápido desenvolvimento econômico e industrial do Japão nesse período. Mas essa importância foi negligenciada há muito tempo na erudição. Esta negligência talvez tenha sido semelhante à negligência até recentemente do reconhecimento do papel da escravidão negra no desenvolvimento do capitalismo britânico (Fryer, 1989). O sistema nacional japonês de prostituição licenciada, em que as altas taxas de impostos foram cobradas, também desempenhou um papel importante na “arrecadação de dinheiro público quando o governo precisava de grandes somas para construir a infraestrutura econômica básica” (Tanaka, 2002, p.118). O negócio de prostituição no exterior, no entanto, era uma fonte importante para a aquisição da tão necessária moeda estrangeira. Há evidências de sua importância no fato de que, de um total de 1.000.000 ienes que os residentes japoneses em Vladivostok remitiu para casa para o Japão em 1900, 630.000 ienes foi de salário em prostituição. No centro de traficantes de Cingapura, a maioria dos residentes japoneses dependia do atendimento à indústria da prostituição, incluindo revendedores, drapeados, fotógrafos, médicos e guardas de bordeis. O comércio japonês seguia o karayuki-san, ao invés do outro. Como Tanaka comenta: “Pode-se dizer que o comércio internacional moderno do Japão se desenvolveu a partir de pequenos começos de comércio varejista que acompanharam a expansão do tráfico de mulheres japonesas na região Ásia-Pacífico” (Tanaka, 2002, p.170).

Mesmo depois da Segunda Guerra Mundial, Tanaka aponta, a prostituição das mulheres locais que foi usada na reconstrução econômica como foram colocadas em um novo “sistema de conforto”, desta vez para adquirir dólares de soldados americanos. Ele comenta que a indústria do sexo do Japão estava tão intimamente entrelaçada com o desenvolvimento do capitalismo japonês que pode ser “incomum encontrar outra nação que explorou as mulheres para o sexo a essa medida” (ibid., p.118). Como observa Susan Brownmiller em seu prefácio ao livro de Tanaka: “A aniquilação moral que acompanha o capitalismo bruto e rudimentar não é muito diferente da brutal exploração sexual que acompanha a guerra” (Brownmiller, 1975, p.xvi). Essa ilegalidade moral continuou a criar indústrias de prostituição em países envolvidos no capitalismo desonesto do mercado livre hoje. Outros países asiáticos pobres seguiram o exemplo do Japão um século depois, quando as Filipinas e a Tailândia tornaram a venda de corpos femininos vitais para suas economias.

O trabalho de Raelene Frances sobre a história da prostituição na Austrália fornece informações úteis sobre como as meninas japonesas traficadas foram usadas lá (Frances, 2007). Elas foram levadas a escravidão de dívidas para investir cidades mineradoras como Kalgoorlie na Austrália Ocidental para o uso sexual da força de trabalho masculina isolada dessas áreas no final do século XIX e, portanto, pode ser visto como tendo desempenhado um papel importante no desenvolvimento econômico da Austrália. A riqueza atual da Austrália deve algo à prostituição dessas mulheres em condições de servidão. A prostituição de mulheres condenadas, algumas das quais já foram prostituídas antes do transporte ou prostituíram a bordo dos navios para a Austrália e muitas das quais não tinham outra chance de sobrevivência à chegada, também eram necessárias para a fundação da Austrália como uma economia funcional. Frances explica que a prostituição de mulheres condenadas foi realizada por pessoas encarregadas de seus cuidados, que estabeleceram bordeis no armazém em que foram colocadas quando saíram dos navios (ibid.). Esta não é a única forma de escravidão empregada no desenvolvimento econômico da Austrália desde que houve escravização de povos aborígenes e o tráfico de pessoas do Ilha do Estreito de Torres em uma variedade de formas de trabalho também. Mas a contribuição das mulheres prostituídas em servidão por dívida para a prosperidade da Austrália, particularmente sua indústria de mineração, não foi tão comentada. Frances também pesquisou as maneiras pelas quais mulheres aborígenes foram sequestradas ou alugadas através da troca de presentes dos homens com direitos sobre elas. Foram utilizadas sexualmente, bem como para o trabalho doméstico e outras formas de trabalho em áreas remotas do oeste e norte da Austrália, em propriedades agrícolas e pecuárias, por mergulhadores em Broome, por pescadores e comerciantes da Indonésia nas costas setentrionais (Frances, 2007). Infelizmente, o desenvolvimento econômico em muitos países e em muitas formas é cada vez mais dependente da prostituição das mulheres de hoje e isso precisa ser uma preocupação da literatura de globalização feminista.

A literatura feminista em estudos de desenvolvimento começou a abordar o problema da violência contra as mulheres, mas ainda não a prostituição (Sweetman, 1998a). As organizações não-governamentais envolvidas no desenvolvimento estão cada vez mais preocupadas em aliviar a violência que já existe nas culturas patriarcais em que operam, mas o fato de que a violência contra as mulheres pode ser resultado do processo de desenvolvimento está apenas começando a ser reconhecido. Caroline Sweetman comenta que “há evidências de que a violência contra as mulheres aumenta de intensidade onde as relações de gênero estão sendo transformadas e o privilégio masculino é desafiado” (Sweetman, 1998b, p.5). Ela apela às organizações de desenvolvimento para que reconheçam “a existência da violência contra as mulheres como uma barreira ao desenvolvimento” (ibid., p.6). Assim, na Papua Nova Guiné, os esforços das ONG para dar às mulheres mais oportunidades de educação são dificultadas pelo fato de que o status dominante dos parceiros masculinos pode ser prejudicado e resultar em maior número de mulheres que buscam frequentar as aulas. À medida que o desenvolvimento econômico ocorre, as estruturas tradicionais de dominação masculina são minadas de outras maneiras também. A vida das aldeias, em que as meninas e as mulheres ganharam alguma proteção através dos homens que tinham direitos sobre elas e através das restrições culturais tradicionais, está a ser substituída pelo crescimento urbano, a criação de rotas de caminhões e campos mineiros, e meninas e mulheres estão se movendo mais livremente, bem como participando em atividades econômicas. Tudo isso contribuiu para uma onda de violência muito grave contra meninas e mulheres, incluindo uma alta taxa de estupro em grupo (Jenkins, 2006). O desenvolvimento da violência contra as mulheres está ocorrendo em relação à mudança econômica em muitos países da América Latina, como as cidades fronteiriças no México e na Guatemala (Amnistia Internacional, 2006c), resultando no assassinato de mulheres e meninas em suas centenas de anos. No Camboja, a prática de estupro em grupo desenvolveu-se consideravelmente em resposta à crescente mobilidade e participação econômica das mulheres (Jejeebhoy et al., 2005), de modo que 61% dos estudantes universitários do sexo masculino admitem se envolver nessa atividade contra meninas prostituídas, meninas e outras mulheres jovens que gostam de cerveja na força de trabalho que podem ser vistas como fugindo de papeis tradicionais e sendo ‘jogo justo’. A violência contra a mulher é uma área muito importante para os estudos de desenvolvimento que está começando a receber atenção, mas a forma como a prostituição está ligada ao desenvolvimento é muito menos compreendida.

A prostituição é criada, mesmo em culturas que não conhecem qualquer forma da prática anteriormente, para atender os trabalhadores do sexo masculino em projetos de desenvolvimento econômico, como campos de mineração e exploração madeireira, onde afeta negativamente a saúde e oportunidades de mulheres e meninas em idades muito jovens e mina as formas tradicionais nas quais mulheres e homens se relacionam (Wardlow, 2007). Cynthia Enloe, cujo trabalho está sempre lançando novas bases para forçar a atenção aos danos sofridos pelas mulheres no desenvolvimento econômico e militar internacional, apontou o problema da prostituição de meninas e mulheres em plantações de banana no Brasil, por exemplo (Enloe, 1989). Os campos de mineração e exploração de madeireira criam os mesmos prejuízos para as meninas. As crianças estão sendo prostituídas na indústria madeireira das Ilhas Salomão (Taranaki Daily News, 2007). Um estudo da Igreja da Melanésia descobriu que “madeireiros da Malásia nas Ilhas Salomão estão envolvidos em terríveis abusos sexuais de crianças da aldeia que estão sendo estupradas, vendidas em casamento e usadas para pornografia” (ibid.). Em uma pequena área, 73 crianças haviam sido “exploradas”. A indústria madeireira é dominada por malaios, mas a madeira de talha clara é enviada para a China para projetos como a construção das instalações olímpicas de Pequim. Um insular que havia trabalhado em um campo de explorações explicou: “Havia sete homens da Malásia e todos estavam casados com meninas de 13 ou 14 anos. Eles não estão interessados nas garotas mais velhas – uma vez que elas têm 18 anos. Não sei que arranjo foi – se eles ganham dinheiro. Mas eles devem ter ganhado” (ibid.). Uma garota de nove anos que foi entrevistada disse que seu pai a levara para o acampamento, onde “eu vi homens da Malásia tocando os seios das meninas de suas casas. Eles costumavam fazer isso com as meninas de suas casas. Enquanto eles estavam comendo, eles teriam uma mão em sua colher (comendo) e uma mão no peito de uma menina”. As crianças são vendidas em “casamentos” temporários nos campos por seus pais. O preço da noiva é uma prática cultural prejudicial nos Salamões, de modo que esta nova forma de prostituição é simplesmente um desenvolvimento dessa tradição patriarcal. No porto de Honiara, meninas de até 12 anos estão trabalhando como “dugongs“, que é o nome local para crianças prostituídas. Elas atendem navios de carga estrangeiros que ancoram para coletar atum capturado por barcos de pesca locais (Callinan, 2006). Um estudo da UNICEF de 2004 encontrou dezenas de exemplos de abuso sexual de crianças, “de prostituição de menores de idade a fabricação de pornografia infantil, turismo sexual infantil e casamentos de conveniência”. Nove crianças de 6 a 14 anos sobreviveram nas ruas fazendo sexo com as tripulações dos barcos de pesca japoneses. Um comentou: “É muito doloroso, mas preciso de dinheiro para comida” (ibid.).

A pesquisa de Shamima Ali para o UNICEF em 2006 sobre a violência contra a menina em 14 estados da Ilha do Pacífico demonstra a forma como o desenvolvimento econômico está criando graves problemas de violência sexual contra meninas e mulheres, incluindo a prostituição (Ali, 2006). Ela documenta o mesmo costume dos pais que vendem garotas para trabalhadores madeireiros e mineiros em Papua Nova Guiné, sob o pretexto de costumes originais, como o preço da noiva, que “foram modificados para atender às necessidades dos homens da família” (ibid., p. 6). Mesmo a introdução da educação pode ter efeitos prejudiciais sobre as meninas, como alguns professores pedem sexo para que os estudantes paguem a taxa da escola (ibid.). O trabalho de Carol Jenkins sobre a mudança da cultura sexual em Papua Nova Guiné como resultado do desenvolvimento econômico e da importação de pornografia explica que, desde a década de 1930, administradores, mineiros e policiais australianos trocaram bens comerciais por acesso a mulheres locais quando abriram os planaltos para fins lucrativos (Jenkins, 2006, p. 27). A mineração foi citada, no entanto, como contribuinte para o crescimento da prostituição já em 1900. Desde os primeiros dias em que os colonizadores começaram a desenvolver a mineração, foi criada uma indústria de prostituição, em uma cultura na qual não existia, para trabalhadores masculinos recrutados localmente. Em 1970, quando a prostituição estava sendo documentada em áreas urbanas e rurais, contribuía para a disseminação da sífilis. As consequências negativas do desenvolvimento econômico na prostituição de mulheres e meninas precisam ser levadas a sério. As preocupações éticas que são consideradas em relação aos desenvolvimentos de mineração e exploração madeireira precisam incluir a construção da prostituição, além de questões de direitos terrestres, direitos humanos e destruição ambiental. Os danos da prostituição talvez se tornem visíveis se os corpos das meninas também fossem vistos como parte do meio ambiente. A discussão dos direitos humanos e da igualdade de gênero no desenvolvimento em relação à mineração agora inclui a consideração da violência contra as mulheres e do HIV, mas ainda não a prostituição (Macdonald, 2003). A criação da prostituição é um sério obstáculo ao objetivo declarado da Organização Internacional do Trabalho de criar uma “globalização justa”.

Conclusão

Quando a teorização feminista da prostituição enquadra a prática como um trabalho comum que permite às mulheres expressar “escolha” e “agência” e representa as mulheres traficadas na escravidão por dívida como simplesmente “migrando para o trabalho”, serve para normalizar a indústria e apoiar seu crescimento. Ele embaralha os danos que as meninas e as mulheres sofrem na prostituição e torna muito difícil para os ativistas feministas se opor à construção de indústrias de prostituição como uma parte comum do desenvolvimento econômico e exigem trabalho digno para mulheres. Tal teorização também apoia a campanha da indústria da prostituição, organizações de trabalho sexual e alguns governos para legalizar ou descriminalizar a prostituição. Para a indústria prosperar, a tolerância é boa, mas a legalização é melhor. Assim, as abordagens que as teóricas feministas escolhem tomar têm importantes implicações. O crescimento da indústria multiplica os danos que são parte integrante da prostituição e outras formas de exploração sexual, sejam eles “legais” ou não. A indústria do sexo não pode ser colocada em quarentena, separada do resto da sociedade para que os homens abusem das mulheres capturadas dentro da indústria em reclusão. Abordagens à prostituição que se concentram em “escolha” e “agência” são profundamente inadequadas para abordar as condições em que a grande maioria das mulheres e meninas entram e lutam para sobreviver na prostituição, como demonstrarão os capítulos seguintes.

A ideia de que “vozes de trabalhadoras sexuais” são ignoradas pela mídia é uma piada

Escrito por: Simone Watson. Sobrevivente da prostituição, índigena da Austrália, diretora da NorMac (Coalizão do Modelo Nórdico na Austrália).

Retirado de: http://www.feministcurrent.com/2016/08/01/idea-sex-worker-voices-ignored-media-joke/ (publicado 1/8/16)

Traduzido por: Carol Correia

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Figura 1 “Trabalhadoras sexuais falam”

No espirito da posição popular “trabalhadoras do sexo são sub-representadas”, repetidas pela mídia liberal de defensores da prostituição, ad naudeam, Daily Life publicou ainda outro artigo repetindo esse mito. A autora, além de autoproclamada “trabalhadora sexual” e escritora publicada, também se designa “furiosa”.

Dessa vez, o artigo aponta o Melbourne Writers Festival (no português, Festival de Escritores em Melbourne) por não ter “uma trabalhadora sexual” no painel “Invisible Women” (no português, “mulheres invisíveis”) – um painel sobre prostituição com Melinda Tankard Reist, Meagan Tyler e Ruth Wykes.

“Trabalhadoras sexuais não são invisíveis. Nós apenas estamos sendo ignoradas”, diz a manchete.

Não, vocês não são ignoradas.

As vozes pró-prostituição são tão onipresentes que até chamar crianças prostituídas de “trabalhadoras sexuais” tem se tornado entranhado pela mídia e pela psique pública.

“Trabalhadoras sexuais” estão tão longe de serem ignoradas que quando escritores que expõem o lado negro do comércio sexual aparecem no painel para falar sobre seu trabalho e sua pesquisa, “a voz de uma trabalhadora sexual” é publicada no Daily Life se opondo a isso.

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Figura 2 Abaixo do título, “esmagado pelas dívidas, estudantes da Universidade de Nova York e outras escolas estão ocupando a ‘profissão mais antiga do mundo'”

 

A vozes pró-prostituição estão tão longe de serem ignoradas que a Anistia Internacional está pressionando seus membros de cerca de quatro milhões de pessoas (e muito provavelmente qualquer esquerdista que eu entrei em contato com) para apoiar a descriminalização completa da indústria do sexo.

Sobreviventes da prostituição constantemente escutam “Prostituição é apenas ‘trabalho sexual’ – um trabalho como qualquer outro? Alguém que diz diferentemente é apenas moralista[1]”, pela mídia e pelo público.

“A cruzada feminista contra trabalhadoras sexuais adveio do sufrágio do movimento moralista sobre seus maridos cometendo adultério.”

– Morgan M Page (@morganmpage) em 12 de agosto de 2015.

“@dreahouston @kwetoday eu vejo o que eles precisam… quando eles usam prostituição, apoiam seus hábitos de drogas… que tipo de vida é essa?

– Invest in Lnowledge (@deceitindrugs) em 3 de outubro de 2015.

“@deceitindrugs por favor. Me poupe de seu moralismo. Eu conheço MUITAS mulheres na indústria do sexo que são empoderada por seu trabalho”

– Andrea Houston (@dreahouston) em 3 de outubro de 2015.

“Esse texto no @latimes é lixo, reportagem moralista sobre trabalho sexual e continua o estigma perigoso http://www.latimes.com/local/abcarian/la-me-0129-abcarian-sex-traffic-20160129-column.html …
– Meagan (meagenrosae) em 29 de janeiro de 2016.

“Querida sociedade: talvez menos moralismo sobre adultos consentindo ao trabalho sexual e um pouco mais sobre o assédio diário na rua?”
– Lucy Everleigh (@lucyeverleigh) em 29 de julho de 2015.

O que Iselin realmente quer dizer não é que “trabalhadoras sexuais” estão sendo ignoradas, mas sua particular voz e as vozes que apoiam inequivocamente a completa descriminalização da prostituição não estão nesse painel em particular.

Mas por que toda discussão sobre prostituição deve incluir vozes daqueles que apoiam a indústria do sexo? Um painel de socialistas argumentando contra capitalismo seria esperado em incluir um bilionário para representar as vozes pró-corporativismo? Um painel de ambientalistas argumentando a injeção de líquidos em alta pressão para a extração de óleo ou gás precisaria convidar um trabalhador de petróleo para o painel para discutir o fato deles apoiarem a indústria pessoalmente?

Scarlet Alliance, um grupo de lobby pró-descriminalização, foi, de fato, oferecido uma seção inteira no Melbourne Writers Festival, mas eles recusaram. Acho que, a menos que haja uma oportunidade para tentar desacreditar autores feministas, “as vozes das trabalhadoras sexuais” não valem realmente o tempo deles. Em comparação, enquanto uma sobrevivente de prostituição que aparece no livro Prostitution Narratives: Stories of Survival in the Sex Trade (o livro ainda não contém tradução para a língua portuguesa, mas no português seria Narrativas de Prostituição: Histórias de Sobrevivência no Comércio de Sexo), o festival me recusou a estar no painel “Mulheres invisíveis” e eu queria estar lá.

Argumentar que isso não é a primeira vez que um festival ignorou “profissionais do sexo”, Iselin aponta para o Festival of dangerous Ideas (em português, Festival de Idéias Perigosas) de 2014, que não tinha um “trabalhador do sexo” auto-identificado no painel, “Mulheres à venda”. Para remediar isso, a jornalista pró-prostituição Elizabeth Pisani convidou uma “trabalhadora sexual” para ocupar seu lugar no palco durante o painel. Este episódio orquestrado proporcionou ao público a voz da então Agente do Projeto Migrante da Scarlet Alliance, Jules Kim. (De acordo com o site da Aliança Scarlet, “O Projeto de Migração” é focado em “profissionais do sexo migrante” – também conhecidos como mulheres traficadas…) Kim é agora a CEO da organização, substituindo Janelle Fawkes que, como Kim, se chama “trabalhadora do sexo “, apesar do fato de que não há evidência de que, de fato, tenha ‘vendido’ sexo. (Não duvidamos que alguns membros do grupo financiado pelo governo, a Scarlet Alliance, vendam ou costumavam vender sexo, mas a mídia e o público precisam ser sábios ao fato de que muitos membros não venderem e nunca terem vendido, apesar do fato de que a organização afirma ser “administrada por profissionais do sexo, para profissionais do sexo”.) Em outras palavras, o impulso para ouvir as “vozes das trabalhadoras sexuais” não representa com precisão as vozes marginalizadas – trata-se de manobras políticas e que criam uma cena em que o público é feito para aceitar argumentos feitos em favor da descriminalização, incontestáveis, porque uma suposta “trabalhadora sexual” diz isso.

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Figura 3″Deveria a prostituição ser um crime? Por Emily Bazelon” Mais uma vez, dessa vez pela New York Times, promovendo “as vozes das trabalhadoras sexuais”.

 

Iselin não está “furiosa” por não haver uma “trabalhadora sexual” no painel “Mulheres invisíveis”, ela está apenas furiosa que as feministas, Tankard Reist e Tyler estão incluídas e falarão sobre os prejuízos da prostituição, em vez de trabalhar para neutralizar e normalizar a prostituição.

Iselin é inteligente o suficiente para pagar um serviço labial politicamente correto para os testemunhos de sobreviventes em Prostitution Narratives, chegando a dizer que ela acha que nossas histórias devem ser “acreditadas, confiáveis e amplificadas”. Mas eu me pergunto se Iselin iria ao festival porque eles se recusaram a me incluir no painel?

Você vê, de fato, são as vozes das mulheres prostituídas e anteriormente prostituídas que estão falando contra a agenda de Iselin e Scarlet Alliance para expandir o comércio sexual que na verdade é “excluído, estigmatizado e marginalizado”. Vozes como os de Iselin e do Scarlet Aliança não são ignorados. Nos Estados Unidos, por exemplo, um longo artigo publicado na New York Times pretendia fazer a pergunta: “A prostituição deveria ser um crime”, mas apresentava apenas autoproclamados “profissionais do sexo” da organização, Sex Workers Outreach Project (SWOP), ainda mais um grupo de lobby pró-descriminalização.

Iselin está “furiosa” de que nossas vozes de sobreviventes foram incluídas em um livro e que uma editora feminista e dois editores foram suficientemente corajosos em publicar nossos depoimentos. E acredite em mim, neste clima pró-comércio sexual, é incrivelmente corajoso – aqueles que não apoiam os direitos dos homens para comprarem mulheres para serem usadas como brinquedos sexuais pessoais são repetidamente vilipendiados e desacreditados por vozes pró-comércio do sexo que desejam empurrar sua agenda a qualquer custo.

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Figura 4 “Trabalho sexual é trabalho”, imagem de capa do artigo no The Nation “Vamos chamar Trabalho sexual pelo que ele é: Trabalho”

 

O texto de Iselin é manipulador e dissimulado. Ela diz que ela não duvida da veracidade de nossos testemunhos, mas nos rejeita, voltando-se nas mulheres que realmente ouviram as sobreviventes e que amplificam nossas vozes, alegando que são apenas oportunistas. Ao reduzir a pesquisa exaustiva de Tankard Reist e Tyler, a inteligência e a coragem delas como “pornografia trágica” ou alguma agenda maligna “contra trabalhadoras sexuais”, ela apaga as realidades e as vozes das sobreviventes.

As histórias reais de mulheres prostituídas não são “pornografia trágica”. É realmente insensível reivindicar apoiar um grupo de pessoas que sofreu torturas, abusos e degradação, então implicamos que somos apenas alguns que passaram a ser tratados de forma difícil e não representa a maioria, quando, na verdade, nós somos a maioria. As pesquisas mostram que as mulheres prostituídas sofrem de PTSD nas mesmas taxas que os veteranos de combate e a maioria sofreu abuso sexual, verbal, físico e psicológico de forma contínua.

Iselin pode ter pago o serviço de testemunhas de sobrevivência, mas porque continua a nos pintar como fracas, não confiáveis, que simplesmente caíram sob o feitiço de defensores anti-trabalhadores sexuais desonestos, seu esforço em mostrar empatia falha.

A mensagem que Iselin envia é que as vozes de sobreviventes e defensores que se opõem ao sistema de prostituição não devem ser “acreditadas, confiáveis e amplificadas”, afinal. De fato, a menos que destacamos e incluímos vozes pró-prostituição, nós somos, aparentemente, narradoras inconfiáveis e nosso trabalho é ilegítimo. Enquanto certamente todo mundo tem um direito a opinião, isso não significa que todas as opiniões devem ser escutadas todas as vezes. A promoção da prostituição tem mais tempo de ar suficiente em todo o mundo, através da mídia, da cultura pop e do discurso de esquerda e liberal. A ideia de que a perspectiva de Iselin é “ignorada” não é mais do que uma mentira tática. Como tantos meios de comunicação liberais, Daily Life caiu nessa também. Que surpresa.

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[1] Nota da Tradução: No original, utiliza-se a expressão “pearl-clutcher” que literalmente significa “embreando pérolas”, que indica pessoas com visões conservadoras ou tradicionais e que são facilmente chocadas. Por falta de palavra melhor, em português fica como “moralista” que é o nome que recebem pessoas que por recusarem a visão pró-prostituição atualmente, por supostamente não terem a ‘mente livre’ de preconceitos à sexualidade de outros.

“Os perigos de renomear a prostituição como ‘trabalho sexual'” de Kat Banyard

Escrito por Kat Banyard (7 de junho de 2016)

Retirado de: https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2016/jun/06/prostitution-sex-work-pimp-state-kat-banyard-decriminalisation#img-1

Traduzido por Carol Correia, a fim de ampliar a discussão acerca da prostituição, além de deixa-la mais séria e não moralista.

Observação: esse texto foi extraído do livro de Kat Banyard ”Pimp State: Sex, Money and Future of Equality” (ainda não há versão em português, mas o título seria “Estado Cafetão: Sexo, Dinheiro e Futuro da Equidade”).

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O engatinhamento de “trabalho sexual” no vernáculo do século XXI não é incidental nem acidental. O termo não “apenas apareceu” e viralizou. A Rede Global de Projetos de Trabalho Sexual (NSWP), uma organização que faz campanha abertamente para manter o dono de bordel e o proxeneta para ser reconhecido como empregos legítimos, creditada como responsável por “trabalho sexual” que substitui a “prostituição” pela terminologia pelas instituições como o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (ONUAIDS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS).

“Mais do que a simples exatidão política”, o NSWP afirma orgulhosamente, “esta mudança na linguagem teve o importante efeito de mover entendimentos globais do trabalho sexual para um quadro de trabalho”. O fato de que a prostituição envolve atos sexuais e algum tipo de pagamento é dado. No entanto, o envolvimento com ele, em primeiro lugar, como uma questão laboral, usando o termo “trabalho sexual” como se fosse uma taquigrafia adequada e apropriada para o que ocorre em clubes de strip-tease, em conjuntos de pornografia e em bordeis, atende um objetivo profundamente político. Essa estrutura não só encolhe o campo de análise ao vendedor (excluindo a demanda masculina e seu impacto social), esconde o que deve ser o primeiro e o centro da nossa resposta à transação: o abuso sexual inerente.

A noção de que ser pago para realizar atos sexuais deve ser reconhecido como um tipo de serviço de trabalho é o raciocínio que sustenta os regimes legalizados da prostituição. É uma ideia que conseguiu unir uma mistura eclética de vozes da esquerda e da direita. Peter Frase – um membro do conselho editorial de Jacobin, uma revista avaliada como uma voz líder da esquerda americana – é a favor de “legalizar todas as formas de trabalho sexual para adultos”. Ele afirma: “Não só o trabalho sexual desestabiliza a ideologia do trabalho, mas também está em conflito com um ideal burguês de sexualidade privada e monógama”. Tim Worstall, escrevendo para o pensamento britânico do Instituto Adam Smith, compartilha a conclusão da política de Frase, embora contraste do raciocínio um pouco. Como um tipo de atividade comercial, Worstall insiste que o comércio de prostituição é “obviamente mercado livre” e que “alugar peças do corpo não deve ser diferente de emprestá-los para se divertir ou de forma gratuita”.

Todo o ponto da indústria do sexo é que oferece aos homens a chance de comprar acesso sexual a mulheres que não desejam fazer sexo com eles – caso contrário, não teriam que pagar. Mascarar o seu propósito fundamental, então torna o principal desafio de relações públicas para a prostituição, a pornografia e as trocas comerciais de strip-tease se quiserem sobreviver – talvez até prosperar – em uma sociedade que decidiu, pelo menos em princípio, que as mulheres não são objetos sexuais subordinados e estupro é uma coisa ruim.

Talvez a única estratégia mais eficaz atingida até agora seja bombear o mito contida no termo “trabalho sexual”: o mito de que é possível comercializar o consentimento.

Como o consentimento sexual pode ser algo que pode ser comprado e vendido, ainda podemos falar seriamente sobre a existência de conceitos como relações sexuais saudáveis e consentimento significativo? Se, ao fazer sexo com alguém, você se sente repelido por eles tocando você, com medo do que eles podem fazer, degradada e humilhada pelos atos sexuais, ferida pelas palavras odiosas que estão sussurrando em seu ouvido, dolorida porque ele é o quinto homem com quem você teve relações sexuais hoje, esgotada de tudo, traumatizada, abusada – o fato de que você ganhará um pouco de dinheiro no final não muda nada. Não há mão invisível no mercado da prostituição que desaparece magicamente a experiência vivida de abuso sexual.

A pobreza pode, naturalmente, desempenhar um papel altamente influente na entrada das mulheres na prostituição. No entanto, afirmando sem rodeios que a pobreza é a causa singular do comércio de prostituição, não reconhece que a pobreza dos homens não gerou uma demanda global das mulheres para pagá-las por atos sexuais, que sem a demanda dos homens não haveria nenhum comércio ou o altamente específico abuso que tão comumente caracterizam a entrada das mulheres nele.

A pesquisa do British Medical Journal descobriu que, em três cidades do Reino Unido, metade das mulheres em prostituição “ao ar livre” e uma quarta das mulheres em prostituição interna, relataram ter sido vítimas de violência por parte de um comprador de sexo nos seis meses anteriores. Da violência que elas já experimentaram nas mãos dos compradores de sexo, as mulheres nas ruas relataram com mais frequência que foram chutadas, esbofeteadas ou levaram socos, enquanto as mulheres em saunas ou apartamentos relataram com mais frequência tentativa de estupro (17% das mulheres com base internas haviam experimentado isso, assim como 28% das mulheres nas ruas). Um estudo separado, em Sociologia da Saúde e da Doença, envolvendo mais de 100 mulheres envolvidas em prostituição plana em Londres, destacou como um ambiente interno pode ter sua própria influência coerciva particular. Cada dia as mulheres tinham que pagar até £250 no aluguel, bem como até £60 por dia para uma empregada doméstica (que, na prática, costumava operar como um proxeneta, às vezes controlando quais compradores de sexo as mulheres veriam), além de um alcance de outras despesas. Em média, uma mulher foi paga por sexo por 76 homens a semana.

O artigo do Economist em 2014, intitulado Uma escolha pessoal, impedindo os “puritanos e os ‘certinhos’[1]” de se intrometer com o comércio do sexo, insiste que os governos devem “deixar adultos que consentem que desejam comprar e vender sexo para fazê-lo de forma segura e privada online”. Isso baseia-se na alegação de que a prostituição é o trabalho sexual tentando enquadrar-se simplesmente como uma série de trocas individuais e privadas separadas do resto da sociedade. Milton Friedman, o economista tardista e proponente do capitalismo desenfreado do mercado livre, implicou o mesmo quando perguntado sobre a prostituição em 2006. “Você coloca um comprador disposto com um vendedor disposto e cabe a eles. Você pode argumentar com eles que é tolo, você pode argumentar com eles que é uma coisa ruim a fazer, mas não vejo nenhuma justificativa para levar a polícia a ele.” Mas a indústria do sexo, como qualquer mercado, não opera no vácuo, deixando o resto da sociedade milagrosamente intocada por sua presença. Os mercados são, como diz a filósofa Debra Satz, instituições sociais: “Todos os mercados dependem de sua operação em regras básicas de propriedade e um complexo de instituições sociais, culturais e legais”. Mercados são uma questão para todos.

O comércio se entrega no tecido da sociedade. Nós sabemos disso. Colocamos todos os tipos de restrições e proibições nos mercados precisamente por causa disso. Porque os riscos, particularmente para os mais vulneráveis e marginalizados da sociedade, são muito altos. Os intercâmbios comerciais que as pessoas podem concordar em participar sem que uma arma seja mantida em sua cabeça – como as vendas de órgãos humanos, direitos de voto, contratos de trabalho vinculado – são, no entanto, considerados legalmente fora dos limites. É a linha na areia que as sociedades desenham para dizer que o prejuízo para aqueles diretamente envolvidos, para terceiros ou para os princípios fundamentais necessários para a igualdade de cidadania, é simplesmente muito grande. Alguns comércios são muito tóxicos para tolerar.

Um princípio básico que é absolutamente indispensável para acabar com a violência contra as mulheres, sem mencionar o nosso conceito fundamental de humanidade, é que o abuso sexual nunca é aceitável. Nem mesmo quando o perpetrador tem algum dinheiro de reposição e a pessoa que está sendo abusada precisa de dinheiro. Líderes de torcida de bordeis, conjuntos de pornografia e clubes de strip-tease nos fariam acreditar que o comércio sexual levitava acima do nível de valores sociais e crenças culturais. Mas ninguém pode optar por não ter seus efeitos. Um mercado de exploração sexual, aceito e tolerado, influencia quem somos como indivíduos e quem somos como pessoas.

Uma sociedade que atua pela lei e pela linguagem, como se os homens que pagam o acesso sexual às mulheres são simplesmente consumidores, que legitimaram os trabalhadores de seus serviços, é uma sociedade em negação profunda sobre o abuso sexual – e a desigualdade que o sustenta.

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[1] NOTA DA TRADUÇÃO: No original, há o termo “do-gooder” que é aquela pessoa bem-intencionada, mas nada realista. Como não encontrei um termo imediato e breve que refletisse a ideia desse termo, traduzi como ‘certinho’, pois é o termo que usa para caracterizar aquela pessoa correta (ou seja, bem-intencionada), mas que não parece estar muito ciente da realidade; que é o caso.

Verdades muito inconvenientes: os compradores do sexo, coerção sexual e a negação da violência na prostituição

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Escrito por: Melissa Farley

Retirado de: http://logosjournal.com/2016/farley-2/

Traduzido por: Carol Correia

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A globalização tem aumentado o pendimento da balança do poder entre os compradores com seu bolso e a mulher que aluga sua vagina por uma taxa. Na França, 85% das prostitutas são imigrantes, muitas sem documentação, vulneráveis a exploração. Na Alemanha, com os megabordeis legais, são cerca de dois terços. Se a demanda não for atacada, mais virão. Isso é algo que alguma nação ocidental deveria se orgulhar: uma subclasse de mulheres pobres das aldeias tailandesas e cidades ucranianas importadas para servir a pênis do Primeiro Mundo? – Janice Turner, 2014.[1]

Alguns cafetões, alguns compradores de sexo e alguns governos tomaram a decisão de que é razoável esperar que certas mulheres tolerem a exploração sexual e a agressão sexual para sobreviverem. Essas mulheres são mais frequentemente pobres e, na maioria das vezes, são etnicamente ou racialmente marginalizadas. Os homens que as compram ou as estupram têm maior poder social e mais recursos do que as mulheres. Por exemplo, um turista canadense de prostituição comentou sobre mulheres na prostituição tailandesa, “Essas garotas precisam comer, não é? Estou colocando pão em seu prato. Estou fazendo uma contribuição. Elas morreriam de fome a menos que elas se prostituíssem.”[2]

Esse darwinismo autocongratulatório evita a pergunta: as mulheres têm o direito de viver sem o assédio sexual ou exploração sexual através da prostituição – ou se esse direito é reservado apenas a aqueles que detém de privilégios de raça, classe e sexo? “Você ganha pelo que paga, sem o ‘não’”, explicou um comprador de sexo.[3] As mulheres não-prostituídas têm o direito de dizerem ‘não’. Nós temos proteção legal contra assédio sexual e exploração sexual. Mas tolerar abuso sexual faz parte da descrição do trabalho para fins da prostituição.

Uma das grandes mentiras é que a maioria da prostituição é voluntária. Se não há evidência de força, então sua experiência é descartada como “voluntária” ou “consentida”. Um comprador de sexo disse: “Se eu não vejo uma corrente em sua perna, eu suponho que ela fez a escolha de estar lá”. Mas a maioria da prostituição hoje é o que as abolicionistas alemãs chamaram de prostituição à pobreza. Isso significa que ela está com fome, ela não consegue encontrar um emprego e ela não tem alternativas. O pagamento do comprador não apaga o que sabemos sobre violência sexual, violência doméstica e estupro. Seja legal ou não, a prostituição é extremamente prejudicial para as mulheres. As mulheres em prostituição têm as taxas mais altas de estupro, agressão física e homicídio de qualquer mulher já estudada. Em um estudo holandês, 60% das mulheres em prostituição legal foram agredidas fisicamente, 70% foram ameaçadas com agressão física, 40% sofreram violência sexual e 40% foram coagidas à prostituição legal.[4]

Na década passada, depois de entrevistar centenas de compradores do sexo em 5 países (EUA, Reino Unido, Índia, Camboja e Escócia), nós estamos olhando com mais atenção para comportamentos e atitudes que alimentam a misoginia da prostituição e nós começamos a compreender alguns de suas motivações. O comportamento normativo do comprador do sexo inclui a recusa em ver a sua própria participação em atividades prejudiciais, tais como em desumanizar mulheres, humilhando-as verbal e fisicamente, assedia-las e pagar a fim de coagi-las em realizar atos sexuais que ela de outra forma não o faria.

Objetificação e a mercantilização estão na raiz da violência na prostituição.

Compradores do sexo não reconhecem a humanidade nas mulheres que eles usam para o sexo. Uma vez que a pessoa é transformada em um objeto, exploração e abuso parecem ser quase razoáveis.

Em entrevistas com os compradores do sexo em diferentes culturas, foram fornecidos alguns exemplos de mercantilização. A prostituição foi entendida como “alugar um órgão por dez minutos.”[5] Outro comprador de sexo americano afirmou que “estar com uma prostituta é como ter uma xícara de café, quando você termina de usar, você joga fora”[6]. Compradores de sexo mercantilizam e selecionam mulheres com base em estereótipos de raça/étnicos, através da hipersexualização étnica.[7] “Eu tinha uma lista de verificação mental em termos de raça”, disse um comprador de sexo de Londres, “Eu tentei todas elas ao longo dos últimos cinco anos, mas que acabou por ser o mesmo.”[8] Em Camboja, a prostituição foi entendida desta maneira: “Nós, os homens são os compradores, as trabalhadoras do sexo são bens e o dono do bordel é um fornecedor.”[9] Uma mulher que tinha se prostituído em Vancouver por 19 anos explicou a prostituição da mesma forma que os compradores de sexo fez, “Eles são donos de você por meia hora ou vinte minutos ou aquela hora. Eles estão comprando você. Eles não têm apegos, você não é uma pessoa, você é uma coisa a ser usada.”[10]

Compradores sexuais faltam empatia

Usando sua própria lógica especial, o comprador de sexo calcula que, além de comprar acesso sexual, o dinheiro também compra-lhe o direito de evitar pensar sobre o impacto da prostituição sobre a mulher que ele usa para o sexo.[11] Sua fantasia é a namorada sem complicações que não faz exigências sobre ele, mas está disposta a satisfazer suas necessidades sexuais. “É como alugar uma namorada ou esposa. Você começa a escolher como um catálogo”, explicou um comprador de sexo do Reino Unido.[12] Os compradores do sexo procuram a aparência de um relacionamento. Um número de homens explicou seu desejo de criar uma ilusão para outros homens que tinham adquirido uma mulher atraente sem pagamento. “Eu quero que minha prostituta não se comporte como uma”, disse um comprador de sexo londrino, “Eu quero que elas finjam o papel de ser uma namorada. Para uma terceira pessoa, parece que estamos apaixonados.”[13] Alguns homens que compram sexo querem a ilusão do tipo de relacionamento que eles são incapazes ou não estão dispostos a ter com as mulheres fora da prostituição. Ele pode fingir intimidade emocional, mas a relação com uma mulher em prostituição sempre não há mutualidade emocional. Se eles constroem um relacionamento emocional agradável imaginário com a mulher que compram para o sexo, então eles podem então manter sua opinião de si mesmos como caras legais. No entanto, estes homens exigem mentiras extensas e exaustivas de mulheres prostituídas. Uma sobrevivente escreveu para o comprador de sexo “legal”,

A verdade, que você está tão desesperada para fugir, é que você é apenas como um estuprador gentil. Sua atitude e comportamento não atenua o que você faz. O dano que você está fazendo é incalculável, mas você diz a si mesmo que você está fazendo nenhum mal aqui e você usa os sorrisos das mulheres que você compra como algum tipo de moeda; elas permitem que você compre a sua própria besteira… Eu não quero você perto de mim, muito menos dentro de mim. Os seus braços em volta de mim me fazem querer vomitar mais do que o seu pênis já fez… Cada momento com você era uma mentira e eu odiava cada segundo dela. (Rachel Moran, 2014.)[14]

Como outros homens sexualmente agressivos, os compradores de sexo não têm empatia pelas mulheres na prostituição. Na Escócia, os pesquisadores descobriram que quanto mais homens compravam sexo, menos empatia por mulheres prostituídas sentiam. “Eu não quero saber sobre ela”, disse um comprador, “eu não quero que ela chore ou isso e aquilo porque isso estraga a ideia para mim.”[15] Os homens criam uma versão sexualmente excitante do que uma prostituta pensa e sente que tem pouca base na realidade.[16] Contra todo o senso comum, a maioria dos compradores que entrevistamos acreditavam que mulheres prostituídas estavam sexualmente satisfeitas com as performances sexuais dos compradores. A pesquisa com as mulheres, por outro lado, mostra que as mulheres não são sexualmente excitadas pela prostituição e, com o tempo, a prostituição prejudica a sexualidade das mulheres.[17]

Uma das poucas diferenças entre violência doméstica e prostituição é que na prostituição, os autores lucram com a exploração sexual. Por causa do dinheiro, a prostituição é muito mais organizada do que o espancamento individual de um homem de uma mulher. Beckie Masaki que foi diretora do Abrigo das Mulheres asiáticas em San Francisco, falou sobre as ondas de choque que passaram pela agência quando começaram a aceitar as mulheres que tinham sido traficadas para a prostituição. Anteriormente, haviam trabalhado individualmente com mulheres agredidas. Agora, estavam aceitando uma dúzia de mulheres de cada vez. Os grupos de crime organizados chineses, vietnamitas e coreanos não estavam felizes com a perda da renda. Isto exigiu o aumento de precauções de segurança para o abrigo.

Compradores do sexo e coerção sexual

A opinião favorável masculina a prostituição é uma de um conjunto de atitudes e opiniões que incentivam e justificam a violência contra as mulheres.[18] Atitudes do direito de acesso sexual e agressão sexual e as atitudes de superioridade sobre as mulheres estão ligadas à violência dos homens contra as mulheres. A pesquisa mostra que os compradores do sexo – como outros homens sexualmente agressivos – tendem a preferir o sexo impessoal, tem medo de rejeição por mulheres, tem uma auto identificação masculina hostil e são mais propensos do que os que não são compradores a estuprarem se houver a possibilidade de saírem impunes.[19] No Chile, Croácia, Índia, México e Ruanda, os compradores do sexo eram mais propensos do que outros homens a estuprar.[20] Homens que usavam as mulheres na prostituição eram significativamente mais propensos a terem estuprado uma mulher do que homens que não compram sexo.[21] Na Escócia, descobrimos que quanto mais vezes um cliente usa mulheres na prostituição, o mais provável era dele ter cometido atos sexualmente coercivos contra as mulheres fora da prostituição.[22]

Negação de danos à prostituição

Os clubes de strip-tease nunca têm espelhos posicionados onde os compradores de sexo podem se ver, um proxeneta que gerenciou clubes de strip-tease durante muitos anos explicou.[23] O que eles não querem ver? Eles querem olhar para longe de suas manobrações predatórias com as mulheres? Eles não querem ver sua própria imundice tola? Eles querem fechar os olhos para a mentira que as mulheres são atraídas pelos compradores de sexo? Eles não querem saber que, enquanto se veem como participantes, os homens que optam por não comprar sexo veem a si mesmo como perdedores? A verdade sobre a prostituição é inconveniente para os homens que compram sexo.

Um comprador de sexo em Londres que observou mulheres do leste europeu e seu “guarda-costas” era um participante ativo no que era muito provável o tráfico sexual. Ele comentou,

A relação parecia muito profissional, como um negócio. Ainda assim, ele as instruiu a fazer coisas que não ficaram totalmente satisfeitos com. Um olhar severo em seu rosto e uma voz ligeiramente elevada, fez-me um pouco desconfortável. Mas depois que a menina tinha recebeu a conversa dele, ela colocou sua face profissional e continuou o que teria que fazer. Meu sentimento desconfortável foi embora porque ela fez isso – ela podia ter se afastado do trabalho. Melissa Farley, Julie Bindel, Jacqueline M. Golding de 2009.[24]

Os compradores do sexo veem e ao mesmo tempo se recusam a ver, o medo, o desgosto e o desespero nas mulheres que compram. Se ela não estivesse correndo do quarto gritando “ajuda, polícia! Tráfico!”, o comprador de sexo conclui que ela escolheu a prostituição. Saber que as mulheres na prostituição foram exploradas, coagidas, prostituídas ou traficadas não impedem os compradores de sexo. Metade de um grupo de 103 compradores sexuais de Londres disse que eles usaram mulheres na prostituição que eles sabiam que estava sob o controle de proxeneta. Como um homem explicou: “É como se ele fosse dono dela”. Outro homem disse: “A menina é instruída a fazer o que precisa fazer. Você pode simplesmente relaxar, é o trabalho dela.”[25] Na Romênia, pesquisadores entrevistaram compradores sexuais, mulheres em prostituição, proxenetas e policiais, todos concordaram que os compradores de sexo “não estão interessados se as meninas são realmente traficadas ou não, mas estão mais interessados em satisfazer suas necessidades sexuais”.[26]

Racionalizações para legalizar ou descriminalizar a prostituição

As leis contra compradores de sexo e proxenetas são barreiras ao negócio da exploração sexual. Legalização e descriminalização da prostituição da zona em áreas onde é legal comprar, vender e ser vendido por sexo. Sob estas leis, os interesses dos homens que compram sexo são representados e os proxenetas são protegidos.[27]

O argumento de que a legalização da prostituição tornaria “mais seguro” é a principal racionalização para a prostituição legal ou descriminalizada. No entanto, não há evidências para isso. Em vez disso, ouvimos reivindicações auto atendidas e asserções fortemente redigidas sem dados empíricos. As consequências da prostituição legal na Holanda e na Alemanha mostraram o quão mal pode obter. A partir de 2016, 80% da prostituição alemã e holandesa estava sob o controle de máfias criminosas.

As consequências de prostituição legal na Holanda e na Alemanha têm mostrado o quão ruim ele pode chegar. A partir de 2016, 80% da prostituição alemã e holandês estava sob o controle de máfias criminosas.

Depois de legalização na Holanda, o crime organizado ficou fora de controle e mulheres na prostituição não estavam mais seguras do que quando a prostituição era ilegal. O prefeito Job Cohen fechou muito da prostituição legal de Amsterdã em resposta ao crime organizado.[28] Depois de legalização em Victoria, Austrália, cafetões estabeleceu 95 bordeis legalizados, mas ao mesmo tempo, eles também estabeleceram mais 400 bordeis ilegais em Victoria.[29] Em vez de diminuir o envolvimento criminoso violento, a legalização da prostituição resultou em um aumento do tráfico de acordo com pesquisa de 150 países.[30]

Quem conhece a vida diária da prostituição entende que a segurança na prostituição é um sonho. Os defensores da prostituição legal e descriminalizada entendem isso, mas raramente o admitem. Ainda assim, a evidência existe, por exemplo, o grupo de trabalho sobre educação e advocacia dos trabalhadores do sexo na África do Sul, distribuiu uma lista de dicas de segurança, incluindo a recomendação de que, enquanto se despia, a prostituída deve “acidentalmente” chutar um sapato debaixo da cama e, ao recuperá-lo, verificar se há facas, algemas ou cordas. O folheto SWEAT observou que afofar o travesseiro na cama permitiria uma busca adicional de armas[31]. Compreendendo a violência letal dirigida às mulheres na prostituição, um proxeneta legal holandês disse a um jornalista: “Você não quer um travesseiro no quarto [do bordel]. É uma arma do crime”[32]. Uma organização de São Francisco recomendou: “esteja ciente das saídas e evite deixar o seu cliente bloquear o acesso a essas saídas” e “os sapatos devem sair facilmente ou serem apropriados para correr” e “evitar colares, cachecóis, bolsas de ombro ou qualquer outra coisa que possa ser acidental ou intencionalmente apertada em sua garganta”[33]. As especificações dos códigos australianos de segurança e ocupação (OSC) para a prostituição ilustram sua preocupação com seus perigos. A OSC australiana recomenda o treinamento de negociações de reféns para as mulheres na prostituição, contradizendo totalmente a noção de prostituição como apenas seu trabalho médio[34]. Os botões de pânico em salões de massagem, saunas e bordeis nunca podem ser respondidos rapidamente o suficiente para evitar a violência. Botões de pânico em bordeis legais fazem tão pouco sentido quanto os botões de pânico nas casas de mulheres vítimas de violência doméstica.

A saúde pública é um componente significativo da segurança acusada de estar presente na prostituição descriminalizada. Na década de 1980, grupos como o Coletivo de Prostitutas de Nova Zelândia (NZPC) tiraram proveito sobre a epidemia da AIDS, centrando-se na educação sobre HIV e na redução de danos entre aqueles na prostituição.[35] Este foco trouxe financiamento maciço aos sindicatos de prostitutas, que o usavam para fazer lobby para a prostituição descriminalizada.[36] A abordagem da redução de danos desses grupos para a prevenção do HIV parece estar baseada na suposição de que se preservativos masculinos fossem suficientemente distribuídos, então a vida será melhor para todos. Na realidade, mulheres querem o fim dos danos (a saída da prostituição) assim como redução de danos. E a maioria dos clientes em todo o mundo se recusam a utilizar preservativos. Epidemiologistas descobriram que o alto risco para o HIV é causado por estupro e um grande número de parceiros sexuais. Nem um desses fatores foi abordado pelos sindicatos de prostitutas.

Embora tenha sido promovido como uma lei que proteja os profissionais do sexo, a própria avaliação do governo da Nova Zelândia em sua lei concluiu que após a prostituição ser descriminalizada, a violência e o abuso sexual continuaram como antes[37]. “A maioria das trabalhadoras do sexo sentiu que a lei poderia fazer pouco sobre a violência que ocorreu” e que era um aspecto inevitável da indústria do sexo[38]. Durante um ano, 35% das mulheres na Nova Zelândia com a prostituição descriminalizada foram coagidas[39]. A maior taxa de coerção sexual por compradores de sexo foi relatada por mulheres em prostituição de salões de massagens que eram controladas por proxenetas (descritas como “administrados” pelo governo). O estigma social da prostituição e a desconfiança da polícia persistiram após a descriminalização. A maioria das mulheres na prostituição não relatou violência ou crimes contra elas na polícia após a descriminalização[40]. Gangues de proxenetas travaram guerras turísticas sobre o controle da prostituição em Auckland[41] e a prostituição de rua em Nova Zelândia ficou sem controle com alguns relatórios de um aumento de 200% após a descriminalização[42].

Concepções desvirtuadas públicas, racionalização e negação sobre a prostituição

Os equívocos públicos sobre a prostituição decorrem de narrativas de compradores de sexo e proxenetas sobre a violência perpetrada contra mulheres na prostituição. As justificações dos homens para outras formas de violência contra as mulheres são notavelmente semelhantes às suas justificativas para a prostituição. Eles culpam a vítima, observando as mulheres na prostituição como intrinsecamente diferentes de outras mulheres e moralmente deficientes. Os agressores justificam bater em mulheres declarando que ela pediu ou provocou. Os compradores de sexo justificam a prostituição ao nos dizer que ela está ficando rica ou que ela simplesmente está fazendo um trabalho desagradável, mas necessário, como o trabalho em fábrica. Os compradores de sexo e os defensores do comércio sexual podem reconhecer uma fração do abuso e da exploração na prostituição, mas justificam o abuso porque as mulheres alegadamente ganham muito dinheiro. Uma vez pagas, a exploração, o abuso e o estupro desaparecem. “Todos elas são exploradas. No entanto, elas também têm bons rendimentos”, disse um comprador de sexo italiano[43]. Um comprador de sexo descreveu os estupros de uma mulher por seu proxeneta. Mas, ele disse, era apenas “De vez em quando, não todas as semanas”[44]. Se as expectativas sexuais dos homens não forem cumpridas, o estupro e a prostituição são considerados inevitáveis. As mulheres que não proporcionam os atos sexuais exigidos por seus parceiros são então culpadas pelo uso que eles têm de mulheres na prostituição. “Se minha noiva não me fará anal, eu conheço alguém que fará”[45].

As palavras que escondem seus danos levam à confusão sobre a prostituição: prostituição voluntária, o que implica que ela consentiu quando não tinha alternativas de sobrevivência; tráfico forçado que implica que em algum lugar há mulheres que se voluntariam para serem traficadas na prostituição; trabalho sexual, que define a prostituição como um trabalho e não como um ato de violência. O termo trabalhador sexual migrante implica que a prostituição e o tráfico são aceitáveis. A prostituição do clube de strip foi reformulada como expressão sexual ou liberdade para expressar sua sensualidade. Os bordeis são chamados de salões de massagem, saunas e clubes de saúde. Homens mais velhos que compram adolescentes para sexo em Seul chamam de namoro compensado. Em Tóquio, a prostituição é descrita como uma relação sexual assistida. Os homens que compram mulheres na prostituição são chamados de partes interessadas, os proxenetas são descritos como gerentes.

Cafetões e traficantes facilitam a negação ao deturpar isso como um trabalho fácil, divertido e lucrativo para as mulheres nele. Mulheres, assim como homens, são proxenetas. Uma série de defensores proeminentes se identificam publicamente apenas como “profissionais do sexo”, embora sejam gerentes de mulheres no comércio sexual, alguns são proxenetas e alguns foram presos por alcovitar, por gerenciar um bordel ou pelo tráfico. Há um conflito de interesses flagrante quando indivíduos que são gerentes/proprietários/proxenetas estão na mesma organização que aqueles que estão sob seu controle. A falsa representação é ainda mais antiética quando os proprietários dos bordeis, os gerentes e os membros do conselho do clube de strip-tease escondem suas afiliações, alegando representar os interesses das profissionais do sexo. Escondendo sob a bandeira dos sindicatos, os proxenetas apelam para as simpatias da esquerda. No entanto, grupos como o Coletivo de Prostitutas da Nova Zelândia, a União Internacional dos Trabalhadores do Sexo (Reino Unido), o Red Thread (Holanda), o Comitê Durbar Mahila Samanwaya (Índia), Stella (Canadá) e o Sexing Worker Organizing Project (EUA) – enquanto agressivamente promove a prostituição como trabalho – não se assemelham ao que a maioria de nós pensa como sindicatos.

Eles não oferecem pensões, segurança, horas mais curtas, benefícios de desemprego ou serviços de saída (o que é que 90% das mulheres em prostituição dizem que querem). Em vez disso, esses grupos promovem um mercado livre de seres humanos que são usados para o sexo[46]. Nós localizamos 12 pessoas de 8 países que se identificam publicamente como profissionais do sexo ou defensores dos trabalhadores do sexo, mas que também venderam outros por sexo ou que estiveram implicados na gestão de negócios de comércio sexual de várias maneiras específicas. Todos promovem o proxenetismo descriminalizado. Muitos foram presos por gerenciar bordeis e agências de acompanhantes, tráfico, alcovitamento, prostituição interestadual ou enriquecer a base da prostituição[47].

Como podemos responder de forma ética e apropriada à existência de prostituição?

A existência da prostituição em qualquer lugar é a traição social nas mulheres, especialmente aquelas que são marginalizadas e vulneráveis devido ao seu sexo, à sua etnia, à pobreza e à história de abuso e negligência. A prostituição é assédio sexual, exploração sexual, muitas vezes tortura. As mulheres na prostituição enfrentam uma probabilidade estatística de estupro semanal, como violência doméstica levada ao extremo. A cumplicidade dos governos sustenta a prostituição. Quando o comércio sexual se expande, as mulheres são menos propensas a competir com os homens por empregos. Quando a prostituição é incorporada nas economias dos estados, os governos são aliviados da necessidade de encontrar empregos para as mulheres. Os impostos-sobre-sangue[48] são coletados pelo estado-enquanto-cafetão na prostituição legal e descriminalizada. Bancos, companhias aéreas, provedores de internet, hotéis, agências de viagens e todos os meios de comunicação são parte integrante da exploração e abuso de mulheres no turismo de prostituição, ganham enormes lucros e são solidificados como parte da economia.

Se ouvimos as vozes e análises de sobreviventes – aquelas que não estão mais sob o controle do proxeneta ou do comércio sexual – elas nos direcionam para as soluções legais óbvias. Os homens que compram sexo devem ser responsabilizados por sua agressão predatória. As que estão na prostituição devem ter alternativas reais para a sobrevivência e nunca serem presas. Aqueles que se beneficiam da prostituição – proxenetas e traficantes – também devem ser responsabilizados. Uma abordagem baseada na lei dos direitos humanos da prostituição, reconhecendo-a como exploração sexual, como a Suécia, a Noruega, a Islândia e a Irlanda do Norte, proporcionaria segurança e esperança. Nesta abordagem abolicionista da prostituição, os compradores de sexo são criminalizados (como os proxenetas e os traficantes) e as pessoas na prostituição são descriminalizadas e também recebem serviços de saída e treinamento profissional. Mas, primeiro, temos que passar pelas mentiras das proxenetas e das profetas sobre a prostituição. Eu sei que podemos fazer isso.

Para resumir:

  1. A verdade sobre a prostituição é muitas vezes escondida por trás das mentiras, manipulações e distorções dos proxenetas do comércio sexual, gerentes e outros que se beneficiam do negócio. As verdades mais profundas sobre a prostituição são reveladas nos testemunhos dos sobreviventes, bem como na pesquisa sobre as realidades psicossociais e psicobiológicas da prostituição.
  2. Na raiz da prostituição, assim como outros sistemas coercivos, estão a desumanização, a objetificação, o sexismo, o racismo, a misoginia, a falta de empatia, o patológico sentimento de que são donos de alguém (proxenetas e compradores), dominação, exploração e um nível de exposição crônica à violência e degradação que destrói a personalidade e o espírito.
  3. A prostituição não pode ser segura ao legalizar ou descriminalizá-la. A prostituição precisa ser completamente abolida.
  4. A prostituição é mais como ser assediada cronicamente sexualmente, ameaçada e estuprada, do que trabalhar em um restaurante de fast food. A maioria das mulheres na prostituição sofre de PTSD grave e quer sair.
  5. Os compradores de sexo são predadores; eles geralmente se envolvem em comportamentos coercivos, não têm empatia e têm atitudes sexistas que justificam o abuso de mulheres.
  6. Existe uma solução. É chamado de modelo sueco e foi adotado por vários países, incluindo Suécia, Noruega, Islândia e Irlanda do Norte. A essência da solução é: a criminalização para compradores e proxenetas; descriminalização para prostituídas e provisão de recursos, alternativas, casas seguras, reabilitação.
  7. A prostituição afeta todos nós, não apenas aquelas nele.

 

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Referências e notas de tradução:

[1] Janice Turner (2014) “The mood’s changed. Buying sex is just wrong. The Times, London, February 8, 2014. http://www.thetimes.co.uk/tto/opinion/columnists/article3999436.ece

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[5] Farley, M. (2007) ‘Renting an Organ for Ten Minutes:’ What Tricks Tell us about Prostitution, Pornography, and Trafficking. In D.E. Guinn and J. DiCaro (eds) Pornography: Driving the Demand in International Sex Trafficking. Pp 144-152. Los Angeles: Captive Daughters Media.

[6] Farley, M., Schuckman, E., Golding, J.M., Houser, K., Jarrett, L., Qualliotine, P., Decker, M. (2011) Comparing Sex Buyers with Men Who Don’t Buy Sex: “You can have a good time with the servitude” vs. “You’re supporting a system of degradation” Paper presented at Psychologists for Social Responsibility Annual Meeting July 15, 2011, Boston.

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[9] Farley, M., Freed, W., Kien, S. P., Golding, J.M. (2012) A Thorn in the Heart: Cambodian Men who Buy Sex. Presented July 17, 2012 at conference co-hosted by Cambodian Women’s Crisis Center and Prostitution Research & Education: Focus on Men who Buy Sex:  Discourage Men’s Demand for Prostitution, Stop Sex Trafficking. Himawari Hotel, Phnom Penh, Cambodia.

[10] Pornography and Prostitution in Canada: Report of the Special Committee on Pornography and Prostitution (1985) 2. Minister of Supply and Services, Canada. p. 376–77.

[11] Spurrell, C. (2006) Who Pays for Sex? You’d Be Surprised. Times Online November 7, 2006.www.timesonline.co.uk/tol/life_and_style/men/article627388.ece

[12] Farley, M., Bindel, J. and Golding, J.M. , 2009.

[13] Farley, M., Bindel, J. and Golding, J.M. , 2009.

[14] Moran, R. (2014) “An Open Letter to the ‘Good’ Punter” May 19, 2014. Survivor’s View Blog. Prostitution Research & Education. http://prostitutionresearch.com/pre_blog/2014/05/19/an-open-letter-to-the-good-punter/

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[21] Monto, M. A., & McRee, N. (2005). A comparison of the male customers of female street prostitutes with national samples of men. International Journal of Offender Therapy and Comparative Criminology, 49, 505-529.

[22] Farley, M., Macleod, J., Anderson, L., and Golding, J. (2011) Attitudes and Social Characteristics of Men Who Buy Sex in Scotland. Psychological Trauma:  Theory, Research, Practice, and Policy 3/4: 369-383.

[23] Prostitution occurs in 99% of strip clubs. Holsopple, K. (1998) Stripclubs According to Strippers: Exposing Workplace Violence. Unpublished Paper; Farley, M. (2004) “Bad for the Body, Bad for the Heart:” Prostitution Harms Women Even If Legalized or Decriminalized. Violence Against Women 10: 1087-1125.

[24] Farley, M., Bindel, J. and Golding, J.M., 2009.

[25] Farley, M., Bindel, J., and Golding, J.M.2009.

[26] Dragomirescu, D.A., Necula, C., & Simion, R. 2009 “Romania: Emerging Market for Trafficking? Clients and Trafficked Women in Romania.” in A. Di Nicola (ed.) Prostitution and Human Trafficking: Focus on Clients. New York: Springer. p. 160

[27] “A abordagem do trabalho sexual na prostituição favorece a descriminalização global com várias formas de legalização, geralmente com alguma regulamentação estadual, às vezes começando pela sindicalização. Seu objetivo é remover as sanções penais de todos os atores da indústria do sexo para que a prostituição se torne tão legítima quanto qualquer outro meio de subsistência”. Catharine A. MacKinnon (2011) Trafficking, Prostitution, and Inequality. Harvard Civil Rights-Civil Liberties Law Review 46: 701-739.

[28] Charter, D. (2008) Half of Amsterdam’s red-light windows close. The Times UK. December 27, 2008http://www.timesonline.co.uk/tol/news/world/europe/article5400641.ece).

[29] Jeffreys, S. (2003) the legalization of prostitution: A failed social experiment. Women’s Health Watch Newsletter, 64: 8-11. http://www.women’shealth.org.nz.

[30] Cho, S-Y., Dreher, A., Neymayer, E. (2013) Does Legalized Prostitution Increase Human Trafficking? World Development 41:67-82. http://www.lse.ac.uk/geographyAndEnvironment/whosWho/profiles/neumayer/pdf/Article-for-World-Development-_prostitution_-anonymous-REVISED.pdf

[31] Farley, M., 2004,  Prostitution Harms Women Even If Legalized or Decriminalized.

[32] Daley, S. (2001) New Rights for Dutch Prostitutes, but No Gain.New York Times. August 12, 2001.http://www.nytimes.com/2001/08/12/international/12DUTC.html

[33] St James Infirmary, 2004, p 172). St James Infirmary (2004 2ndedition) Occupational Health and Safety Handbook. San Francisco: Exotic Dancers Alliance and STD Prevention and Control Services of the City and County of San Francisco.

[34] Sullivan, M. (2007) Making Sex Work: a failed experiment with legal prostitution. Melbourne: Spinifex.

[35] Priscilla Alexander observou que a epidemia de AIDS trouxe consigo certas vantagens fiscais para aqueles que promovem a prostituição. Alexander, P. (1996) Foreword. Priscilla Alexander in N. McKeganey and M. Barnard (Eds.) Sex Work on the Streets: Prostitutes and Their ClientsPhiladelphia: Open University Press.

[36] Jenness, V. (1993) Making It Work: the Prostitutes’ Rights Movement in Perspective. New York: De Gruyter

[37] Prostitution Law Review Committee (2008) Report of the Prostitution Law Review Committee on the Operation of the Prostitution Reform Act 2003. Wellington, New Zealand.http://www.justice.govt.nz/prostitution-law-review-committee/publications/plrc-report/index.html:157

[38] Prostitution Law Review Committee (2008), p.14 and 57

[39] Prostitution Law Review Committee (2008), p. 46.

[40] Prostitution Law Review Committee (2008), 122.

[41] Tapaleao, Vaimoana (2009, May 4). City takes prostitute dilemma to the top. New Zealand Herald. http://www.nzherald.co.nz/nz/news/article.cfm?c_id=1&objectid=10570143.

[42] O Comitê de Revisão da Lei de Prostituição da Nova Zelândia, 2008, p. 118 observou que a prostituição de rua em Auckland mais do que duplicou em apenas um ano, 2006-2007. Outros relatórios na imprensa colocam os números muito mais altos. “As estimativas indicam que o número de trabalhadoras de rua na cidade de Manukau pode ter quadruplicado desde junho de 2003…”.Manukau City Council, Report of Manukau City Council on Street Prostitution Control http://www.manukau.govt.nz/uploadedFiles/manukau.govt.nz/Publications/Plans_&_Policies/mcc-report-on-streetprostitution-aug-2005.pdf.

[43] Di Nicola, A., Cuaduro, A., Lombardi, M., Ruspini, P. (editors) (2009) Prostitution and Human Trafficking: Focus on Clients. New York: Springer.

[44] Farley, M., Schuckman, E., Golding, J.M., Houser, K., Jarrett, L., Qualliotine, P., Decker, M. (2011) Comparing Sex Buyers with Men Who Don’t Buy Sex: “You can have a good time with the servitude” vs. “You’re supporting a system of degradation” Paper presented at Psychologists for Social Responsibility Annual Meeting July 15, 2011, Boston.

[45] Farley, M., Schuckman, E., Golding, J.M., Houser, K., Jarrett, L., Qualliotine, P., Decker, M., 2011.

[46] Cecilie Hoigard (2015) The Presence of Pain in the Debate on Prostitution,Women’s Front of Norway. Available at http://kvinnefronten.no/wp-content/uploads/2015/05/Two-Articles-on-Prostitution.pdf

[47] Norma Jean Almodovar, EUA, Fundação Internacional de Trabalhadores Sexuais para Arte, Cultura e Educação, Call Off Your Old Tired Ethics (COYOTE), condenada por alcovitamento. Diretora executiva da COYOTE/Los Angeles, Norma Jean Almodovar, foi condenada por alcovitamento. Consulte o relatório AP em Spokane Chronicle 27 de setembro de 1984, https://news.google.com/newspapers?nid=1345&dat=19840927&id=PldOAAAAIBAJ&sjid=jfkDAAAAIBAJ&pg=7010,2487624&hl=en; Consulte também o relatório AP no Registro-Guard Eugene Oregon, https://news.google.com/newspapers?nid=1310&dat=19840927&id=Aa1jAAAAIBAJ&sjid=iuEDAAAAIBAJ&pg=6617,6534751&hl=en;

Terri Jean Bedford, do Canadá, advogada de profissionais do sexo, condenada por gerenciar um bordel. Bedford era uma das três candidatas, descrevendo-se como profissionais do sexo, que desafiavam as leis canadenses sobre a prostituição com o objetivo de descriminalizar a prostituição no Canadá. Consulte http://www.cbc.ca/news/canada/dominatrix-found-guilty-1.165890 para uma descrição da prisão de 1994; veja também Toronto Star Archives, Paul Moloney (1994) Sexual bondage parlor raided in Thornhill. Toronto Star Sept 17, 1994 http://www.thestar.com/news/gta/2011/06/13/the_making_of_abad_girl.html para uma descrição de sua prisão por dirigir uma casa de obscenidade. “A polícia da Região de York apreendeu uma surpreendente variedade de parafernália de servidão sexual em uma incursão em um modesto bangaló de Thornhill anunciado como a Casa de Erótica de Madame de Sade. Junto com chicotes, correntes, pás para espancamento, algemas, máscaras, perucas e botas, a polícia apreendeu um trono alto, estoques, bancos de palmadas e uma cruz de madeira preta com amarras para a cabeça, os braços e os pés. Dois “dominantes” e um atendente “submisso” – “Mistress Marie”, “Mistress Morgan” e “Princess” – forneceram sessões que permitiram a gratificação sexual, principalmente a masturbação, disseram os investigadores”;

Claudia Brizuela, Argentina, Associação de prostitutas femininas da Argentina, Rede de trabalhadores sexuais femininos da América Latina e do Caribe, acusada de tráfico sexual. Claudia Brizuela, ex-líder da Associação de Mulheres Meretrizes da Argentina (AMMAR) e fundadora da Rede de Trabalhadores de Sexo Feminino da América Latina e Caribe, foi presa e acusada de tráfico sexual em 2014. Ambos os grupos de trabalhadores sexuais foram financiados pelo UNAIDS e referenciados pela Amnistia Internacional em apoio à sua defesa da descriminalização. Veja Ex dirigente de Ammar processada por liderar vermelho de trata. (Fonte Anna Djinn) https://thefeministahood.wordpress.com/2015/08/24/what-amnesty-did-wrong/;

Maxine Doogan, EUA, Erotic Service Providers Union, encarregada de dirigir uma agência de acompanhantes. Mary Ellen (Maxine) Doogan pimpeou mulheres de uma agência de prostituição de escolta em Seattle, WA, Personal Touch Escort Service, onde foi acusada de promoção criminal de prostituição e lavagem de dinheiro. Ela se declarou culpada por uma menor acusação de proxenetismo e foi condenada em 1994 pela promoção de prostituição de segundo grau. Natureza da ação: acusação para o segundo grau de promoção da prostituição pelos meios legais de lucrar com a prostituição. Tribunal Superior: O Tribunal Superior do Condado de King, nº 93-1-04076-4, Anthony P. Wartnik, J., em 8 de agosto de 1994, entrou em julgamento sobre um veredicto de culpabilidade;

Robyn Little, EUA, Sex Workers Outreach Project, condenada por conspiração para promover a prostituição interestadual. Robyn Few fori condenada por violar uma lei federal, conspiração para promover a prostituição. Ela fundou o Sex Workers Outreach Project. http://www.swopusa.org/about-us/founder-robyn-few/; Jesse Jardim (2004) Ex-Prostitute Hits the Streets to Decriminalize Prostitution. Daily Californian Jan 29 2004. http://archive.dailycal.org/article.php?id=13940;

Douglas Fox, Reino Unido, União Internacional de Trabalhadores do Sexo, preso por viver a custas do lucro da prostituição, conselheiro da Amnistia Internacional, administra a agência de acompanhantes. Douglas Fox foi um dos fundadores da União Internacional de Trabalhadores do Sexo. Ele foi preso por lucrar a custa da prostituição em uma picada policial na agência de escolta Christony Companions. Julie Bindel (2015) “What you call pimps, we call managers” Byline July 21 2015. https://www.byline.com/column/7/article/188.

A jornalista de investigação Julie Bindel conclui que o propósito da União Internacional de Trabalhadores do Sexo parece ser “normalizar o proxenetismo, pressionar pelo fim das leis que criminalizam os exploradores na indústria do sexo e, em última instância, ‘adoçar’ a prostituição e apresentá-la como um tabalho como qualquer outro.” Veja Bindel, J. (2013) An Unlikely Union: Julie Bindel investigates a world of workers, pimps, and punters. The Gaze. April 2013. http://www.gaze-amodernreview.co.uk/contributors.html (também disponível pelo autor);

Eliana Gil, México, Rede Global de Projetos de Trabalho Sexual, Rede de Trabalhadores Femininos de América Latina e Caribe, condenada por tráfico sexual. Eliana Gil foi presa em 2014 e condenada em 2015 pelo tráfico sexual. http://www.sinembargo.mx/22-02-2014/912026. De acordo com o testemunho da vítima, com seu filho, ela prostituia cerca de 200 mulheres na Cidade do México. A Rede de Trabalhadores de Sexo Feminino da América Latina e Caribe foi afiliada e financiada pelo Programa das Nações Unidas sobre HIV/AIDS, afiliado à Organização Mundial da Saúde e citado pela Amnistia Internacional http://www.faber.co.uk/blog/a-human-rights-scandal-por-kat-banyard/

Pye Jakobsson, Suécia, Rose Alliance, Rede Global de Projetos de Trabalho Sexual, conselheira de uma década de um clube de strip-tease de Estocolmo, onde também foi paga para organizar o horário do clube e colocar novas mulheres no horário do clube. Ela se envolveu em agendamento semelhante de atividades de mulheres e quase-gerenciamento em um segundo clube (Erostop). Pye Jakobsson reconhece estar no conselho do strip-tease Flirt Fashion de 2001-2012. “Founder also on board of strip club” January 14, 2013 Kajsa Skarsgård  Commentary http://www.dagensarena.se/innehall/frontfigur-ocksa-i-styrelse-for-strippklubb/; Gerda Christensen (tradução para inglês: Annina Claesson) “Swedish Rose Alliance – a fraudulent organization,” 2013 Newsletter of Kvinnofronten, the Women’s front in Sweden http://kvinnofronten.nu/eng/Newsletter/debate-rose-alliance.htm. Uma sobrevivente que se aproximou de Jakobsson na Rose Alliance afirmou que Jakobsson recrutou mulheres para trabalhar no clube de strip-tease. http://bibbidibobbidibutthole.tumblr.com/post/125394583276/womensliberationfront-gerda-christenson-ofJakobsson foi entrevistada por um repórter enquanto ela estava no Erostop, onde novamente seu trabalho foi descrito por um repórter como “agendamentos de manipulação:” “Pye Jakobsson, 32, lida com horários e outras coisas em torno dos strippers no Erostop”. http://wwwc.aftonbladet.se/nyheter/0006/24/sexklubb.html A revisão do comprador de sexo da Erostop a partir de 2007 descreveu atos de prostituição no clube onde Jakobsson manipulou horários e outras coisas: “Show privado onde as meninas mostram coxas e você tira de seu custo $ 500.” https://www.flashback.org/t2831p3;

Jackie McMillan, Austrália, Sex Workers Outreach Project, produtora de pornografia, gerente de clube de masmorras e promovedora. Jackie McMillan afirmou que ela produziu pornografia por 10 anos https://www.facebook.com/WomanSaySomething/posts/782787211765971. McMillan também gerencia um clube de fetiche em Sydney com seu marido, Craig Donarski, onde os funcionários do Hellfire Club proporcionam uma experiência de calabouço com escravidão, dominação, sadismo e submissão. http://www.au.timeout.com/sydney/adult/features/11813/bdsm-in-sydney; https:// http://www.linkedin.com/in/jackiemcmillan; Donarski e McMillan receberam um prêmio comercial para o Hellfire Club em 2014http://australianpridenetwork.com.au/sydney-lgbti-community-honours-its-heroes/;

Maggie McNeil, EUA, Sex Workers Outreach Project, dona da agência de prostituição de escolta de Nova Orleans. Maggie McNeil declarou: “Eu possuía um serviço de escolta. Eu era uma madame. https://maggiemcneill.wordpress.com/2011/11/17/across-the-pond/#comment-15832 e “eu era a melhor dona da agência em Nova Orleans” http://titsandsass.com/haters-gonna-hate-even-when-youre-both-sex-workers/#comment-3022;

Tanja Sommer, Alemanha, defensora do trabalho sexual com Berufsverband erotische und sexuelle Dienstleistungen (BesD), Associação Empresarial de Serviços Eróticos e Sexuais. Gerencia um estúdio de sexo dominatrix e aluga quartos para outros em prostituição. Tanja Sommer, em posição de liderança no BesD http://berufsverband-sexarbeit.de/en/contact/ também dirige seu próprio estúdio dominatrix em que outras mulheres se prostituem. Spiegel, “Uncovered” March 28, 2015: http://www.spiegel.de/spiegel/print/d-132909484.html Sua colega Holger Rettig é líder da UEGD (Unternehmerverband Erotikgewerbe Deutschland – Business Association of Erotic Business na Alemanha). Esta organização, composta apenas por proxenetas, ajudou a encontrar e trabalhar em estreita colaboração com o BesD. http://www.spiegel.de/spiegel/print/d-132909484.html;

Margo St James, EUA, COYOTE, prisão por gerenciar um bordel. Para uma biografia da vida e prisão de Margo St. James, veja Alison Bass (2015) Getting Screwed: Sex Workers and the Law, documentando a prisão de St James por meio de uma entrevista com ela, descrevendo a declaração do policial de que ela o solicitou, sua convicção de dirigir uma “casa desordenada” ou seja, bordel, sua declaração de que seus colegas de quarto estavam se prostituindo, mas a própria St James não estava prostituindo no momento da prisão.

[48] NOTA DA TRADUÇÃO: “Blood-taxes” é um imposto pelo derramamento de sangue.

Introdução do livro “A Vagina Industrial” de Sheila Jeffreys

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A Vagina Industrial – A economia política do comércio do sexo global

(The Industrial Vagina – The political economy of the global sex trade)

 Escrito por: Sheila Jeffreys

Traduzido por: Carol Correia

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Introdução: Do lenocínio para um setor de mercado profitável

 

Prostituição não foi intimidada. Apesar dos entendimentos confiantes de feministas antes da década de 1980 que a prostituição era um sinal e um exemplo da subordinação das mulheres que deixam de existir quando as mulheres ganharam equidade, no final do século XX foi construída como um setor do mercado mundial florescente e imensamente lucrativo. Este desenvolvimento é surpreendente se considerarmos as formas em que a prostituição tem sido considerada por feministas ao longo de dois séculos para ser o próprio modelo de subordinação das mulheres (Jeffreys, 1985a). Kate Millett escreveu em 1970 que a prostituição era “paradigmático, de alguma forma o cerne da condição do sexo feminino” que reduzia mulher a “buceta” (Millett, 1975, p. 56). As feministas nos anos 1960 e 1970 compreenderam a prostituição como uma ressaca de sociedades dominantes masculinos tradicionais que desapareceriam com o avanço da igualdade das mulheres. Foi, como Millett colocou, um “fóssil vivo”, uma velha forma de relações de escravos ainda existentes na atualidade (ibid.). No entanto, no final do século XX, várias forças se uniram para dar nova vida a esta “prática cultural prejudicial” (Jeffreys, 2004). O mais importante é a nova ideologia econômica e prática dessas vezes, o neoliberalismo, em que a tolerância de “liberdade sexual” foi fundida com a ideologia do mercado livre para reconstruir a prostituição como “trabalho” legítimo que pode formar a base de indústrias internacionais e nacionais. Este livro analisa os processos pelos quais a prostituição foi industrializada e globalizada no final do século XX e início do XXI. Argumenta que este setor de mercado em crescimento precisa ser entendido como a comercialização da subordinação das mulheres e sugere como a reversão da indústria do sexo global pode ser feito.

Até os anos 1970, houve consenso entre os governos e no direito internacional de que a prostituição não deveria ser legalizada ou organizada pelos Estados. Este consenso depois de uma campanha internacional de sucesso por grupos de mulheres e outros contra a regulação estatal da prostituição a partir do final do século XIX (Jeffreys, 1997). Este intensificado através da comissão da Liga das Nações sobre o tráfico de pessoas entre as duas guerras mundiais e culminação na Convenção de 1949 sobre o tráfico de pessoas e exploração da prostituição de outrem. Esta Convenção identificou a prostituição no seu preâmbulo como incompatível com a dignidade e o valor da pessoa humana. É proibido manter um bordel. Em resposta à Convenção e do zeitgeist[1] que representava, lenocínio, vivendo dos lucros da prostituição e aquisição para fins de prostituição foram proibidos tanto em países que tinham aderido à esta convenção, quanto naqueles que não aderiram.

Este estado de espírito de condenação universal mudou na década de 1980, período neoliberal, e começou o processo pelo qual os proxenetas foram transformados em empresários respeitáveis que podiam ingressar no Rotary Club. O negócio da prostituição em bordeis foi legalizado e se transformou em um “segmento de mercado” em países como Austrália, Holanda, Alemanha e Nova Zelândia, stripping tornou-se uma parte regular do “lazer” ou da indústria de “entretenimento” e pornografia se tornou respeitável o suficiente para empresas como a General Motors fazerem canais pornográficos parte de seu estábulo. Enquanto uma parte da indústria da prostituição tornou-se legal, respeitável e um setor de mercado rentável neste período, a grande maioria da prostituição tanto dentro desses países ocidentais que legalizaram e através do mundo permaneceu ilegal e o setor mais rentável para o crime organizado.

Este livro vai olhar para as práticas em que dinheiro ou bens são trocados para que os homens possam obter acesso sexual aos corpos de meninas e mulheres. Eu incluo essas práticas geralmente reconhecidas como a prostituição em que os homens, por meio de pagamento ou a oferta de alguma outra vantagem, ganham o direito de usar as mãos, pênis, boca ou objetos em ou nos corpos de mulheres. Embora a prostituição de meninos e jovens rapazes para o uso sexual de outros homens seja uma pequena parte desta indústria, isso não será considerado em detalhe aqui (ver Jeffreys, 1997). Incluídos nesta definição são as formas de prática de casamento em que meninas e mulheres são trocadas entre as famílias patriarcais com a troca de dinheiro ou favores, incluindo o casamento infantil e casamento forçado ou por meio de pagamento a agências como no caso da indústria de noiva de ordem de correio. Pornografia está incluído porque é diferente de outras formas de prostituição somente porque é filmado. Trata-se de pagamento às meninas e mulheres para o acesso sexual. Stripping está incluído não só porque a prostituição e dança de colo tem lugar nos clubes, mas porque envolve o uso sexual de mulheres, mesmo quando nenhum toque ocorre. As práticas abrangidas aqui se encaixam no conceito de “exploração sexual”, que é o tema do Projeto de 1991 das Nações Unidas, Convenção Contra a Exploração Sexual: “A exploração sexual é uma prática pela qual pessoa(s) atingem a satisfação sexual ou ganho financeiro ou a promoção, através do abuso da sexualidade de uma pessoa mediante a anulação do direito humano da pessoa para a dignidade, a igualdade, autonomia e bem-estar físico e mental” (para discussão sobre este projeto de convenção e do texto, ver Defeis, 2000). “A exploração sexual” inclui práticas não pecuniárias, como estupro, enquanto este livro analisa a exploração sexual comercial em que os principais meios de poder empregado para extrair o acesso sexual de meninas e mulheres é econômica, embora outras formas, como força brutal, sequestro e fraude podem também estar envolvidos.

 

A industrialização e a globalização da prostituição

Este livro vai mostrar que, nas últimas décadas, a prostituição foi industrializada e globalizada. Pela industrialização eu quero dizer as maneiras em que as formas tradicionais de organização da prostituição estão sendo alteradas por forças econômicas e sociais para se tornar em grande escala e concentrada, normalizada e parte da esfera corporativa mainstream. A prostituição foi transformada de uma forma ilegal, de pequena escala, em grande parte local e socialmente desprezada de abuso de mulheres em uma indústria internacional extremamente rentável e legal ou, pelo menos, tolerada. Nos estados que legalizaram suas indústrias de prostituição em larga escala, bordeis industrializados empregam centenas de mulheres vigiadas e reguladas por agências governamentais (M. Sullivan, 2007). Em algumas partes da Ásia, a industrialização da prostituição ocorreu na forma da criação de áreas de prostituição maciças nas cidades. Em Daulatdia, formado há 20 anos, em uma cidade portuária no Bangladesh, 1.600 mulheres são sexualmente usadas por 3.000 homens diariamente (Hammond, 2008). Este livro analisará a globalização da prostituição também, examinando as maneiras em que a indústria do sexo global tem sido integrada na economia política internacional. Kathleen Barry explica que, desde 1970, “as mudanças mais dramáticas na prostituição têm sido sua industrialização, normalização e difusão mundial generalizada” (Barry, 1995, p. 122). O resultado da industrialização tem sido “um mercado global multibilionário em mulheres, nacionalmente e no exterior, no tráfico altamente organizado e no mais difundidos, arranjos informais” (ibid.). Um relatório de 1998 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) fornece uma poderosa evidência para sugerir que a prostituição foi organizada em uma nova escala e integrada em economias nacionais em maneiras significativas na década de 1990. Como Lin Leam Lim comenta:

Prostituição mudou recentemente em alguns países do Sudeste Asiático. A escala da prostituição foi ampliada para um ponto onde podemos justificadamente falar de um setor de sexo comercial, que está integrado na vida econômica, social e política desses países. A indústria do sexo assumiu as dimensões de uma indústria e tem contribuído, direta ou indiretamente, em grande medida ao emprego, renda nacional e crescimento econômico. (Lim, 1998, p. VI)

O relatório é globalmente positivo sobre o desenvolvimento como bom para as economias destes países, argumentando que a prostituição deve ser reconhecida como legítima por parte dos governos por causa de sua rentabilidade, mesmo se eles não vão tão longe como para legalizá-la.

A prostituição é agora um setor de mercado significativo no interior das economias nacionais, embora o valor das indústrias do sexo doméstico seja difícil de estimar, considerando o tamanho da indústria ilegal e a falta geral de transparência que o rodeia. A indústria da prostituição é mais desenvolvida e enraizada nos países em que os militares como os EUA e o Japão na década de 1930 e 1940, criaram sistemas de prostituição em uma escala e com uma precisão que é industrial, como a Coréia, Filipinas e Tailândia (Moon, 1997; Tanaka, 2002). O relatório da OIT estima que as contas da indústria do sexo para 2-14% do valor das economias dos quatro países estudados, as Filipinas, Malásia, Tailândia e Indonésia (ibid.). O governo coreano estimou em 2002 que um milhão de mulheres foram na prostituição em qualquer momento no país (Hurt, 2005). A indústria foi estimada em 4,4% do produto interno bruto (PIB), mais do que a silvicultura, pesca e agricultura combinadas (4,1%). Isto foi dito ser uma estimativa conservadora, uma vez que muitas formas de prostituição eram impossíveis de rastrear. Estima-se que entre 1 em 6 e 1 em cada 10 mulheres no país têm trabalhado em alguma capacidade na prostituição (ibid.). A indústria do sexo na Holanda, que legalizaram a prostituição de bordel em 2001, foi estimado em 5% do PIB (Daley, 2001). Na China, o boom na indústria da prostituição desde a transição para uma economia de mercado a partir de 1978 tem sido particularmente notável, uma vez que se desenvolveu a partir de uma base baixa na era maoísta, quando a prostituição não era tolerada. Há agora um número estimado de 200.000-300.000 mulheres prostituídas só em Pequim e em qualquer lugar entre 10 e 20 milhões de mulheres prostituídas na China como um todo (Zhou, 2006). A indústria da prostituição é estimada a ser 8% da economia chinesa e vale cerca de US $ 700 bilhões (ibid.).

A globalização da indústria do sexo é a incorporação de prostituição na economia internacional de muitas maneiras. O tráfico de mulheres tornou-se valiosa para as economias nacionais, por exemplo, por causa do dinheiro enviado dessas mulheres para o país de origem. Governos como o das Filipinas têm incentivado o comércio ao fornecer treinamento para as mulheres antes de sair. Em 2004, filipinas no Japão enviaram para casa US$ 258 milhões. $8,5 bilhões em remessas anuais de todas as filipinas que trabalham no exterior compreende 10% da renda do país (McCurry, 2005, p. 15). Oitenta mil filipinas entraram no Japão em 2004 em matéria de vistos de entretenimento de seis meses, dos quais foram requeridos até 90% para trabalhar na indústria do sexo. A globalização está permitindo pornografia e empresas de clube de strip norte-americanas, tais como Spearmint Rhino e a cadeia Hustler, assim como o crime organizado que está normalmente ligado a eles, para fazer lucros de produtos e locais em muitos países. Spearmint Rhino tem um clube em Melbourne. A cadeia de US Hustler de Larry Flynt adquiriu um também e instalou um cafetão local em Melbourne, Maxine Fensom, para executá-lo. Um artigo comemorativo no jornal Sunday Age explica que Fensom está trabalhando com um número de indústrias “adultas” dos EUA para criar uma indústria natal de pornografia australiana sediada em Melbourne para fazer “pornô gonzo”, que é o mais degradante e abusivo, para o mercado americano, começando com ‘festa de fuder o c* (Halliday, 2007).

A indústria do sexo não apenas faz lucros para bordeis e proprietários de clube de strip e empresas de pornografia recém respeitáveis. Muitos outros atores beneficiam-se economicamente, o que ajuda a incorporar a prostituição dentro das economias nacionais (Poulin, 2005). Hotéis e companhias aéreas se beneficiam do negócio e do turismo sexual. Os motoristas de táxi que entregam os compradores do sexo masculinos para bordeis e clubes de strip são dados descontos da indústria do sexo. Outros que se beneficiam, incluem os seguranças e os manobristas em clubes de strip e as empresas que oferecem serviços de strippers com figurinos e maquiagem. Inclui as empresas que comercializam as bebidas alcoólicas que são consumidas nesses clubes. Duas empresas de whisky escocês, Chivas Regal e Johnnie Walker, foram identificados como beneficiárias da prostituição de bordel na Tailândia, por exemplo, e assim, de acordo com a Scottish Daily Record, alimentando a prostituição infantil e barões do crime asiáticos que são tão essenciais para a indústria Thai (Lironi, 2005). O crescimento de lucro de 12% de Chivas Regal em 2004 foi atribuído em um relatório à sua associação com bordeis tailandeses. Todos esses lucros são feitos a partir da venda dos corpos das mulheres no mercado, embora as próprias mulheres, como veremos, estão recebendo uma parcela muito pequena disto.

A globalização da indústria do sexo significa que os mercados em corpos das mulheres não são mais confinados dentro das fronteiras nacionais. Tráfico, turismo sexual e o correio comercial de noiva têm assegurado que a desigualdade severa das mulheres pode ser transferida além das fronteiras nacionais como as mulheres dos países pobres podem ser sexualmente compradas por homens de países ricos (Belleau, 2003). O final do século XX viu o engajamento da venda por atacado de prostituidores de países ricos na prostituição de mulheres de países pobres em uma nova forma de colonização sexual. Isso está ocorrendo através da indústria de noiva de ordem de correio, no qual as mulheres da América Latina são importadas para os EUA, por exemplo, ou as mulheres das Filipinas na Austrália. Está ocorrendo também através da indústria do turismo sexual. Como parte de excursões organizadas por países ricos ou ‘turistas’ como individuais, os compradores ricos procuram mulheres locais ou traficadas em destino de turismo sexual. Assim, os homens podem ser compensados pela perda do seu status em países onde as mulheres têm feito progressos no sentido da igualdade, através da terceirização de subordinação das mulheres para ser consumidas em outro lugar ou de mulheres pobres importadas. A cadeia de abastecimento tem sido internacionalizada com o tráfico em grande escala de mulheres de países pobres em todos os continentes em destinos que incluem seus vizinhos mais ricos, isto é, da Coreia do Norte para a China e para destinos ocidentais de turismo sexual como a Alemanha e os Países Baixos. A Internet oferece aos compradores do sexo masculino nas linhas de chat de sexo nos EUA canalizados através de Estados insulares empobrecidos (Lane, 2001). Esta integração da indústria do sexo para o capitalismo global não foi suficientemente observada ou estudada e as implicações para o status das mulheres e para a governança têm sido pouco observado em tudo.

Novas tecnologias, como viagens aéreas têm facilitado o movimento de mulheres e meninas prostituídas e dos compradores e, assim, aumentou a dimensão e âmbito internacional da indústria. Da mesma forma a internet tem o turismo sexual, o negócio da ordem de noiva por correspondência e outras formas de prostituição a se expandirem e se inter-relacionarem. Novas tecnologias eletrônicas de fita de vídeo para a internet permitiram o desenvolvimento de uma indústria massivamente rentável, com um alcance global, em que as mulheres nos países pobres podem ser entregues em filme ou em tempo real, para realizar atos sexuais para homens no oeste (Hughes, 1999). Embora as tecnologias que permitam que os corpos das mulheres sejam entregues aos compradores do sexo masculino mudam e se desenvolvem, a vagina e as outras partes do corpo das mulheres que formam a matéria-prima da prostituição permanece resolutamente “tecnologia antiga” e impermeável à mudança. A vagina torna-se o centro de um negócio organizado em escala industrial através da própria vagina, ainda está sujeito a problemas inevitavelmente associados com o uso do interior do corpo de uma mulher, desta forma, na forma de dor, sangramento e à abrasão, a gravidez e doenças sexualmente transmissíveis e os danos psicológicos associados que resultam dos corpos das mulheres vivas sendo usados como instrumentos de prazer dos homens. A prostituição está sendo globalizada também através do processo de desenvolvimento econômico nos países anteriormente organizado em torno de subsistência.

A prostituição está sendo globalizada ao ponto de ser feita através do processo de desenvolvimento econômico em países previamente organizados ao redor da subsistência. Prostituição, ou em alguns casos particulares de formas de prostituição, é exportada para os locais de desenvolvimento industrial nos países “pobres”, como Papua Nova Guiné e Ilhas Salomão (Wardlow de 2007; UNESCAP, 2007). Assim como as empresas de mineração e madeireiras estrangeiras abrem novas áreas para novas formas de exploração colonial, eles criam indústrias de prostituição para atender os trabalhadores. Essas indústrias têm um efeito profundo sobre as culturas e as relações entre homens e mulheres locais. Esta prática tem uma história no “desenvolvimento” da Austrália no século XIX, por exemplo, quando as mulheres indígenas ou mulheres japonesas traficadas foram empregadas para os homens de serviço envolvidos na tomada sobre terras indígenas para a mineração e pecuária (Frances, 2007).

A tradicional política internacional não inclui a indústria do sexo dentro de suas preocupações, como, aliás, não considera muitas outras questões que se relacionam com mulheres e meninas. Teóricas feministas têm avançado consideravelmente nos últimos dez anos na questão de gênero na política internacional e relações internacionais, em particular. Cynthia Enloe foi a pioneira em fazer a prostituição uma preocupação para a política internacional feminista através de seu trabalho sobre o militarismo e a prostituição militar na década de 1980 (Enloe, 1983, 1989). Mais recentemente textos de política internacional feministas têm acobertado as questões do tráfico de mulheres e turismo sexual, nomeadamente o trabalho de Jan Pettman (Pettman, 1996). Mas o trabalho feminista sobre a economia política internacional em geral, quer omitindo a prostituição ou o incluindo de maneiras que são problemáticos, ou seja, como uma forma de trabalho reprodutivo e “socialmente necessário” (Peterson, 2003). O tráfico de mulheres tem sido objeto de um grande derramamento de pesquisas na última década (Farr, 2004; Monzini, 2005), mas outros aspectos da indústria, tais como pornografia, por exemplo, não foram analisados em uma perspectiva internacional. O único livro que analisa a indústria do sexo global como um todo a partir de uma perspectiva de economia política é, o muito útil, La Mondialisation des industries de Richard Poulin du sexe (A globalização da indústria do sexo) (2005).

Linguagem importa

Nas últimas duas décadas, a linguagem utilizada na literatura acadêmica e na formação de políticas mudou consideravelmente conforme a prostituição foi normalizada. Mesmo estudiosos feministas e ativistas agora geralmente usam uma nova linguagem eufemística, de tal forma que se tornou raro encontrar “prostituição” para se referir a tudo. Em consonância com o entendimento promovido por alguns grupos de defesa do trabalho sexual na década de 1980, a prostituição é comumente referida atualmente como “trabalho sexual”, o que sugere que ele deve ser visto como uma forma legítima de trabalho (Jeffreys, 1997; Jeness, 1993). Aqueles que promovem a noção de que a prostituição deve ser encarada como trabalho qualquer, eu devo referir a elas como “trabalho do lobby do sexo” e as ideias subjacentes a esta abordagem como a “posição de trabalho do sexo”. A posição do trabalho sexual é a base das exigências para a normalização e legalização da prostituição. Como corolário desta posição, os homens que compram as mulheres agora são comumente referidos como “clientes”, o que normaliza a sua prática como apenas uma outra forma de atividade de consumo. Aqueles que dirigem locais de prostituição e tiram os lucros da indústria são regularmente referidos no meu estado de Victoria, Austrália, onde os bordeis são regulados pela autoridade de licenciamento de negócios, como “prestadores de serviços” (M. Sullivan, 2007).

Na década de 1990, a linguagem relativa ao tráfico de mulheres para a prostituição também foi alterada por aqueles que consideram a prostituição um setor do mercado comum. Assim tráfico é agora chamado, por muitos ativistas profissionais do sexo e aqueles em estudos de migração, de migração de mão de obra (Agustin, 2006a). A linguagem é importante. O uso da linguagem corrente do comércio em relação à prostituição faz com que o dano desta prática seja invisível. Facilita o desenvolvimento rentável da indústria global. Se algum progresso é para ser feita em controlar a indústria global, então se usa uma linguagem que faz com que o dano visível seja mantido ou desenvolvido. Neste livro, será usado a linguagem que chama a atenção para os danos que a prostituição constitui para as mulheres. Assim eu me refiro às mulheres prostituídas em vez de profissionais do sexo, porque isso sugere que algo prejudicial está sendo feito para as mulheres e traz os perpetradores em cena. Eu chamo de ‘prostituidores’, os compradores do sexo masculino, em vez de clientes, em referência à palavra útil em espanhol ‘prostituidor’, ou seja, o homem que prostitui a mulher, uma formulação que sugere a desaprovação e um que não está disponível em português. Refiro-me aqueles que lucram em cima de terceiros como cafetões e proxenetas, termos que podem agora parecer antiquados, mas que mostram um desprezo razoável para a prática de obter lucros na dor das mulheres. Estados que legalizam as suas indústrias de prostituição me refiro como “estados-cafetão”. Irei continuar a usar o termo “tráfico de mulheres” para se referir à prática de transporte de mulheres em servidão por dívida.

A prostituição como uma prática cultural prejudicial

A maior parte da literatura acadêmica e feminista sobre a prostituição, que usa a linguagem de “trabalho sexual” baseia-se na premissa de que é possível, ou mesmo desejável, fazer distinções entre as várias formas de indústria do sexo; entre prostituição de crianças e prostituição de adultos, entre o tráfico e a prostituição, entre o tráfico forçado e tráfico gratuito, entre prostituição forçada e prostituição livre, entre os setores legais e ilegais da indústria, entre a prostituição no oeste e prostituição no não-oeste. A criação de distinções legitima formas de prostituição, criticando alguns e não outros. Este livro é diferente porque olha para conexões e inter-relações ao invés de distinções. Ele olha para as formas em que todos esses aspectos da exploração sexual dependem e envolvem um ao outro. Aqueles que procuram fazer distinções geralmente subscrevem a noção de que há uma espécie livre e respeitável da prostituição para adultos que pode ser visto como um trabalho normal e legalizado, uma forma de prostituição para o racional, de escolha individual, com base na igualdade e contrato. A grande maioria da prostituição se encaixa nesta imagem muito mal, mas na verdade é a ficção necessária que subjaz a normalização e a legalização da indústria.

Este livro emprega um quadro feminista radical que compreende a prostituição como uma prática cultural prejudicial originária da subordinação das mulheres (Jeffreys, 2004) e constituindo uma forma de violência contra as mulheres (Jeffreys, 1997). É inspirado pela obra de outras teóricas feministas radicais sobre a prostituição como Kathleen Barry (1979, 1995) e Andrea Dworkin (1983) e visa alargar as suas análises para a indústria global em uma variedade de suas formas. Uma vez que este livro tem a perspectiva de que a prostituição é prejudicial para as mulheres não é preciso uma abordagem de normalização. Assim, o livro termina com uma reflexão sobre as formas em que a indústria global da prostituição pode ser melhor ferida de volta, de modo que a esperança feminista tradicional de acabar com a prostituição pode, mais uma vez, se tornar imaginável e uma meta razoável para as feministas a prosseguirem na política pública.

A Vagina Industrial começa a partir do entendimento de que a prostituição é uma prática cultural prejudicial. É predominantemente uma prática que é realizada através de e nos corpos de mulheres e para o benefício dos homens. Desde a década de 1970, houve um desenvolvimento considerável no reconhecimento de que são chamados em documentos das Nações Unidas “práticas nocivas tradicionais/culturais” (Jeffreys, 2005). As palavras tradicionais e culturais são usadas alternadamente na literatura das Nações Unidas sobre este assunto. Esta evolução é o resultado da campanha feminista e foi impulsionada por preocupações sobre a mutilação genital feminina, que pode ser considerada a pragmática “prática cultural prejudicial”. Esta preocupação foi escrita na Convenção de 1979 das Nações Unidas sobre a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW). Artigo 2 (f) da CEDAW afirma que partes da Convenção irão “tomar todas as medidas necessárias, inclusive legislativas, para modificar ou revogar leis, regulamentos, costumes e práticas que constituam discriminação contra as mulheres” (grifo meu). Artigo 5 (a) afirma de forma semelhante que “todas as medidas adequadas” serão tomadas para “modificar os padrões sociais e culturais de conduta de homens e mulheres, com vista a alcançar a eliminação de preconceitos e costumes e todas as outras práticas que se baseiam em a ideia da inferioridade ou superioridade de qualquer dos sexos ou em funções estereotipadas de homens e mulheres “(grifo meu). A prostituição se encaixa nesses critérios particularmente bem. Ela decorre do entendimento de que as mulheres têm o papel estereotipado de fornecer seus corpos para o prazer dos homens sem nenhuma preocupação com seus sentimentos ou personalidade. No caso dos prostituidores que engloba o papel estereotipado dos homens agindo sobre seu direito patriarcal de usar os corpos de mulheres que desejam estar em outro lugar, ou podem mesmo estar chorando de dor, para sua própria satisfação. Justifica-se pela tradição como na panaceia expressada frequentemente que é a “profissão mais antiga”. A escravidão é muito velha, mas raramente justificada pela sua longevidade. A historiadora feminista, Gerda Lerner, escreve de forma mais útil sobre a maneira em que a prostituição de bordel no antigo Oriente Médio originado na escravização de prisioneiros na guerra, como uma forma tolerável de lidar com as mulheres escravas excedentes (Lerner, 1987).

A definição de práticas tradicionais nocivas foi estendida em 1995 em uma Ficha Informativa da ONU nº 23 intitulado Práticas Tradicionais Nocivas para a Saúde das Mulheres e Crianças. Os critérios propostos na introdução abrangem vários aspectos que cabem prostituição muito bem. As práticas de prejudicar a saúde de mulheres e meninas e há uma riqueza de acumular evidências sobre a extensão dos danos que a prostituição provoca na saúde (Farley, 2004). Práticas culturais tradicionais são ditas como que “refletem os valores e crenças de membros de uma comunidade por períodos muitas vezes abrangendo gerações” e é dito que persistem porque não são questionadas e assumem uma aura de moralidade aos olhos dos que as praticam (Nações Unidas, 1995, p. 3-4). Embora muitos valores e crenças de dominação masculina foram ou estão em processo de mudança em muitas sociedades, a ideia de que a prostituição é necessária, como uma forma de proteger as mulheres não prostituídas de estupro por exemplo ou porque os homens não conseguem se controlar, na verdade, está ganhando força ao invés de perdendo. As práticas são “realizadas em benefício do sexo masculino” e seria difícil argumentar que a prostituição não seja para benefício masculino, considerando quem é prejudicado deste modo (ibid.). São “consequências do valor colocado sobre as mulheres e crianças do sexo feminino pela sociedade” e “persistem em um ambiente onde as mulheres e as meninas têm acesso desigual à educação, riqueza, saúde e emprego”.

Muitas das práticas culturais prejudiciais reconhecidas na comunidade internacional de direitos humanos têm origem na troca de mulheres. A troca de mulheres entre homens com a finalidade de acesso sexual e reprodutiva e para extrair o trabalho livre é a base da subordinação das mulheres e ainda profundamente enraizada nas culturas patriarcais (Rubin, 1975). Pode tomar uma variedade de formas, das quais a prostituição como comumente encontrado em cidades ocidentais é apenas um. Outras formas de intercâmbio em que as relações de poder de dominação masculina são certas, tais como formas de casamento envolvendo crianças, preço da noiva e dote, força ou pressão cultural em vez de livre escolha, o casamento temporário e concubinato, são todos bastante bem compreendidos como práticas prejudiciais culturais baseadas na subordinação das mulheres. Mas, como veremos neste livro, a prostituição está integralmente ligada com todas essas outras práticas que têm essas origens conectadas. Mulheres e meninas são traficadas para prostituição de bordel, mas também para o casamento e concubinato. Pode ser difícil separar uma dessas práticas de outras. A prostituição é muitas vezes vista como o oposto do casamento, mas, como veremos no capítulo 2, há em muitos casos, apenas uma sutil diferença entre essas duas formas dominantes de troca patriarcal de mulheres. É porque a prostituição é uma prática cultural prejudicial que não pode ser retocada em uma indústria respeitável. Não é como o trabalho doméstico, no qual as mulheres também são vítimas de tráfico e mantidas em condições servis, embora números consideravelmente menores, porque o trabalho doméstico pode ser feito por homens e não é necessariamente baseado em biologia e opressão das mulheres. O trabalho doméstico não é em si uma prática cultural prejudicial, embora as condições em que é realizado podem ser profundamente prejudiciais para mulheres. Este livro é sobre a maneira em que esta prática cultural prejudicial foi transformada em uma l indústria global massivamente e rentável que é defendida pelos proponentes da posição de trabalho sexual como o exercício de “agência” das mulheres e uma forma de “espírito empresarial”.

A importância da aceitação social

A rentabilidade crescente e expansão da indústria do sexo global depende da aceitação social. Ela exige que os governos ou tolerem ou legalizem a indústria. Assim, um relatório da indústria no bordel legalizado e indústria de clube de strip na Austrália em 2007 deixa certo que o aumento da aceitação social é crucial para as contínuas e crescentes lucros da indústria do sexo. O “fator da chave de sucesso” que consta no relatório é a “capacidade de efetivamente mudar o comportamento da comunidade” e isso é necessário por causa do “nível significativo de estigma moral ligada à prostituição” (IBISWorld, 2007, p. 22). O relatório observa que houve um aumento na “aceitação do consumidor”, mas a indústria está vulnerável à “imagem negativa em grande parte devido às questões morais, de saúde e segurança associados a ele”. Como o relatório diz, “as entidades são extremamente sensíveis a má imprensa que reduz a confiança entre os clientes (atuais e potenciais), as autoridades e o público em geral” (IBISWorld, 2007, p. 8). Tal comentário sugere que feministas e a comunidade de oposição poderia ser eficaz na contenção da indústria. Infelizmente a maioria da escrita acadêmica feminista e ativista sobre a prostituição no presente normaliza a prostituição em sua linguagem e em seus conceitos centrais. Este desenvolvimento na teoria feminista é examinado e criticado no Capítulo 1.

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Notas de rodapé:

[1] Zeitgeist é um termo que representa “o espírito da época”.

Um soldado e uma trabalhadora sexual entram em um consultório de terapia. Quem é mais provável ter PTSD?

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Escrito por: Mary-Anne Kate e Graham Jamieson

Texto originalmente publicado em: http://theconversation.com/a-soldier-and-a-sex-worker-walk-into-a-therapists-office-whos-more-likely-to-have-ptsd-71464

Traduzido por: Carol Correia

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Quando pensamos sobre o transtorno de estresse pós-traumático (PTSD), pensamos mais frequentemente em soldados traumatizados por suas experiências de guerra. Mas as estatísticas contam outra história.

Embora cerca de 5-12% do pessoal militar australiano, que tenha experimentado serviço ativo, tenha apresentado PTSD em um momento; este é aproximadamente o mesmo (10%) que as taxas para a polícia, pessoal de ambulância, bombeiros e outros trabalhadores de resgate.

E embora essas taxas sejam significativas, não são muito diferentes das taxas na população geral australiana (8% das mulheres e 5% dos homens).

PTSD é realmente mais comum em populações com uma alta exposição a formas de traumas complexos. Trata-se de traumas interpessoais múltiplos, crônicos e deliberadamente infligidos (abuso físico e sexual e agressões, abuso emocional, negligência, perseguição e tortura).

As trabalhadoras do sexo, as mulheres que fogem da violência doméstica, as sobreviventes de abusos na infância e os australianos indígenas têm muito mais probabilidade de ter experimentado este trauma complexo. Nesses grupos, cerca de 40% e 55% são afetados pelo PTSD.

Assim, como e por que o trauma complexo deles difere do PTSD que nós associamos mais geralmente com os militares?

PTSD vs. complexo de PTSD

Um trauma complexo leva a um tipo específico de PTSD, conhecido como PTSD complexo, que será listado na edição de 2018 da Classificação Internacional de Doenças pela primeira vez.

PTSD complexo implica-se em respostas a eventos extremamente ameaçadores ou horríveis que são extremos, prolongados ou repetitivos, de que uma pessoa acha difícil ou impossível escapar. Exemplos incluem abusos sexuais ou físicos repetidos na infância e violência doméstica prolongada.

Geralmente, o PTSD envolve estresse mental e emocional persistente como resultado de lesão ou choque psicológico severo. Normalmente envolve sono perturbado, flashbacks traumáticos e respostas entorpecidas para os outros e para o mundo exterior.

Mas as pessoas com PTSD complexo também têm problemas para regular suas emoções, acreditam que não têm valor, têm sentimentos profundos de vergonha, culpa ou fracasso e têm dificuldades em manter relacionamentos e sentir-se próximos dos outros.

Trauma precoce (na infância)

PTSD complexo está ligado a trauma precoce, tais como abuso físico e sexual na infância. E dado que meninas são duas a três vezes mais prováveis de serem abusadas sexualmente do que os meninos, isso pode explicar parcialmente por que, no momento em que as meninas atingem a adolescência, elas são três vezes e meia mais prováveis que os meninos a serem diagnosticadas com PTSD. Os sistemas nervosos das meninas também podem ser mais vulneráveis ao desenvolvimento de PTSD.

Trauma complexo enquanto criança também aumenta o risco de trauma quando adulto. Outros estudos confirmam uma ligação entre trauma precoce e ser vítima de violência doméstica.

Um risco ocupacional

Pessoas com certas ocupações também estão em alto risco de PTSD. Um estudo sobre profissionais do sexo de rua com base em Sydney, descobriu que quase metade teria cumprido os critérios para um diagnóstico de PTSD em algum momento durante suas vidas, tornando este o maior risco ocupacional de PTSD na Austrália. As elevadas taxas de PTSD são atribuídas a múltiplos traumas, incluindo abuso sexual na infância e agressões físicas ou sexuais violentas durante o trabalho.

Pessoas com histórias de trauma complexo também são mais propensas a encontrar trabalho em que o trauma é um risco ocupacional, como militar ou policial, com o potencial de agravar ainda mais o seu trauma.

Pessoas com histórias de abuso na infância e outras experiências adversas na infância também são mais propensas a desenvolver PTSD na linha do dever.

Outros grupos em risco

As mulheres escapando da violência doméstica estão em risco especial de PTSD, com um estudo australiano que encontrou 42% das mulheres em um refúgio feminino que sofrem dele.

Enquanto a violência doméstica é uma forma de trauma complexo em si, é muito mais provável que seja experimentado por mulheres que, como crianças, experimentaram abuso sexual, espancamentos severos por pais e que também cresceram em casas onde havia violência doméstica. Essas experiências de trauma complexo na infância e na idade adulta aumentam significativamente o risco de ter PTSD complexo na idade adulta.

Outro dos grupos de maior risco são os australianos indígenas, com um estudo em uma comunidade remota, encontrou que 97% tinham experimentado eventos traumáticos e 55% preenchiam os critérios para PTSD em algum momento de suas vidas.

Indígenas australianos têm altas taxas de trauma interpessoal que frequentemente começam cedo na vida e são caracterizados como grave, crônica e perpetrada por várias pessoas, muitas vezes autoridades e conhecidos do indivíduo. Esses traumas complexos são ainda agravados pelos impactos transgeneracionais generalizados da colonização.

O estigma permanece

PTSD em militares, polícia e emergência na linha do dever tem menos estigma associado ao que o PTSD associado com situações de violência doméstica e trabalhadoras do sexo, em parte porque algumas pessoas pensam que este último grupo criou o problema para si mesmas.

Esses equívocos refletem uma falta de conscientização sobre o impacto de um trauma complexo no autovalor de uma pessoa, habilidades de enfrentamento e capacidade de avaliar o perigo e, em seguida, respondê-la efetivamente.

Os sobreviventes de trauma complexo são menos propensos a serem tratados para seu PTSD, apesar de seus sintomas serem mais difundidos.

Isso pode não ser surpreendente, considerando que sobreviventes de trauma complexo são muitas vezes confrontados com a pressão social, comunitária e familiar para permanecer em silêncio e tem um medo legítimo de ser acusado de fantasiar, mentir, procurar atenção ou estar buscando vingança.

E sem apoio profissional adequado, muitos sobreviventes de trauma complexo se medicam com drogas e álcool.

Envolvendo o sistema de saúde

Há armadilhas para pessoas com PTSD complexo que se envolvem com o sistema de saúde mental. Isso ocorre porque o tratamento padrão para PTSD, terapia de exposição, que envolve falar sobre sua experiência e sua reação a ela, pode ser potencialmente retraumática e destabilizante. Profissionais de saúde também podem perder o trauma subjacente se o foco está em sintomas mais visíveis, como abuso de substâncias, depressão ou ansiedade.

Mas a nova categoria do diagnóstico de PTSD complexo fornece uma oportunidade para selecionar populações de alto risco que seriam improváveis em procurar tratamento.

A nova categoria de diagnóstico também permite que os tratamentos abordem sensivelmente os sintomas padrão de PTSD, bem como a desregulação emocional, autopercepções negativas e distúrbios de relacionamento que vêm com ele.

Mulheres grávidas estão sendo legalmente cafetinadas para sexo – essa é a forma mais baixa de capitalismo

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Escrito por Julie Bindel

Retirado de: http://www.independent.co.uk/voices/prostitution-pregnancy-pornography-exploitation-consent-a7697536.html

Traduzido por: Mayara Balala

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Quando quer que surjam nas minhas mídias sociais notícias do bordel Bunny Runch em Nevada, eu raramente consigo resistir a uma leitura. Eu passei um tempo nesse bordel nesse bordel em 2012, acompanhada pelo maior cafetão da América, Dennis Hof. Eu conheci nos bordéis dele mulheres que eram tão tristes quanto desesperadas, e ainda desapontadas que a legalização tenha tornado as coisas piores para elas, ao invés de melhores. Uma mulher, em gravidez avançada, perguntara ao gerente se ela podia tirar seis meses de licença para ter seu bebê e voltar sem precisar se reinscrever para seu antigo trabalho. O gerente lhe disse que ela estaria muito melhor trabalhando durante a gravidez, “porque existem um monte de homens querendo apertar peitos de mulheres grávidas”.

Quando eu li no blog do Bunny Ranch um artigo intitulado “O Direito da mulher a escolher ser uma profissional do sexo grávida”, escrito por uma mulher prostituída chamada Summer Sebastian, que é desafortunada o suficiente para trabalhar lá, eu percebi que Dennis Hof havia simplesmente angariado ainda mais um jeito de fazer dinheiro com o corpo das mulheres.

Eu tive minha primeira experiência feminista ainda na adolescência na campanha contra a indústria pornográfica no início dos anos 1980. Nós sabíamos ainda muito pouco sobre o quão indivisíveis eram a pornografia e a prostituição. O que eu descobri nesses dias foi que qualquer que fosse o fetiche dos homens, haveria um gênero pornográfico para ele. E isso foi alguns anos antes da invenção da internet.

Um desses gêneros era o pornô de grávidas. Eu achei, vendo edições antigas da revista Hustler, mulheres em gravidez avançada, nuas, fetichizadas por suas barrigas grandes e seios inchados. Eu lembro das fotografias de homens adultos aparentando mamar nesses seios, enquanto outros se masturbavam sobre suas barrigas.

Eu aprendi a parar de me perguntar, depois de um tempo, como os homens acabam fantasiando com sexo forçado com mulheres prestes a dar à luz, do mesmo jeito que eu tranquei na gaveta de arquivos da minha mente marcada com “horror” os homens que colecionavam fotografias da sola dos pés de crianças pré-púberes.

Tendo acabado de conduzir dois anos de intensiva pesquisa sobre o comércio global do sexo, eu tenho sido relembrada de como pornografia é simplesmente prostituição com uma câmera. Tendo visitado bordéis – legais e ilegais- em países ao redor do mundo, eu tenho visto como compradores de sexo têm o que exigem contanto que tenham o suficiente para pagar por isso. Uma certa história nunca vai me deixar. Uma mulher sendo prostituída em um bordel legal na Alemanha foi paga para fazer sexo grupal com seis homens, todos os quais haviam pedido por uma mulher em gravidez avançada para transar. Ela disse, depois de passar por essa experiência hedionda (que foi perfeitamente legal pela lei da Alemanha), que sentia que havia cafetinado sua criança não nascida. Ela, é claro,não havia feito nada assim. Mas o cafetão, ou “proprietário de bordel” como a legalização demanda que ele seja dignificado, com certeza estava fazendo justamente isso.

Onde existe prostituição legal, como na Alemanha, Países Baixos, Austrália e Nova Zelândia, cafetões legais vão vender literalmente qualquer coisa para qualquer um sem preocupação com interferência da lei.

Onde não existem leis contra zoofilia, uma mulher em um bordel legal pode ser penetrada por animais, de qualquer tamanho, e ninguém está quebrando a lei. A mulher muito provavelmente será ferida e fortemente traumatizada, mas quem liga para ela em um sistema onde o lucro suprime segurança e dignidade?

O aumento de mulheres grávidas à venda na indústria do sexo se encaixa perfeitamente à  noção neoliberal de que o corpo feminino não é nada além de um mercado, onde tudo está à venda. Como eu recentemente descobri enquanto investigava a indústria do mercado de leite materno no Camboja, ocidentais ricos brancos não têm nenhum problema em minerar os corpos de mulheres pobres de cor para a própria conveniência.

Summer Sebastian argumenta em seu artigo que prostituição durante a gravidez não é nada além de um bom plano de negócios. Se prostituição fosse realmente “um trabalho como qualquer outro” ela não estaria com certeza pedindo por licença maternidade? Eu não consigo pensar em nenhum outro emprego onde estar grávida seja uma vantagem para as mulheres, nem mesmo na obstétrica (que, a propósito, é a verdadeira profissão mais antiga). Sebastian está simplesmente jogando para as forças do mercado. Homens que pagam por sexo  desumanizam as mulheres que compram, e isso significa cada uma de suas partes, incluindo a criança não nascida que pode estar crescendo dentro delas. Alguns desses homens simplesmente não vão dar a mínima que a mulher da qual estiverem abusando esteja grávida e possa sofrer complicações de saúde por estar fazendo o tipo de sexo violento que tantos deles exigem, ou por estar sob o risco de doenças sexualmente transmissíveis.

Outros vão se sentir excitados pela ideia de um feto perto do desenvolvimento completo sendo quase envolvido no ato da prostituição. Isso é tão perturbador quanto pode ser. Mas não deveria ser uma surpresa para nenhum de nós – os homens que pagam por sexo estão pagando por consentimento. Eles sequer sabem ou ligam se a mulher que estão comprando se sente traumatizada, chateada ou indiferente quanto ao homem pagando o dinheiro. Quando você desumaniza uma pessoa para os propósitos do prazer sexual unilateral, você deixa de se importar com qualquer humanidade envolvida, inclusive a sua própria.